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Paralamas e Titãs: 10 momentos

Nêmesis. Na mitologia grega, era filha de Nyx, a deusa da noite, e era responsável por manter a equanimidade entre os seres, combatendo a desmesura. Na língua portuguesa moderna, porém, “nêmesis” virou o arqui-inimigo a ser combatido, mesmo que tenha características muito próximas a quem o persegue. Tire-se toda a carga negativa desse significado; considere-se que “nêmesis” é um colega para quem, ao mesmo tempo, se olha com admiração, mas com certa competitividade. Pois bem: é exatamente essa a relação que uniu e une os Paralamas do Sucesso aos Titãs. Amizade e competição, lado a lado, fosse qual fosse a fase de ambas (e fosse qual fosse a formação titânica).

Felizmente, para quem gosta delas, a competitividade sempre foi superada pela gigante admiração mútua, que já rendeu participações e apresentações em conjunto – como a que ocorrerá neste sábado, 5 de março de 2016, no ginásio Nilson Nelson, em Brasília, pelo festival Brasília Rock Show. Com mais esse capítulo na longa história, nada melhor do que vermos mais uma lista aqui no site. Eis aí, então, dez momentos em que Titãs e Paralamas caminharam paralelamente em suas histórias, ainda que sempre com coisas em comum.

1) Os primeiros contatos

Como é previsível, Titãs e Paralamas se conheceram nas danceterias e gravações de programas de auditório da vida, em que despontavam as bandas que começavam a movimentar o rock brasileiro nos anos 1980. Em depoimento ao making-of disponível no DVD de Uns dias – Ao vivo, Nando Reis lembrou-se de quando conheceu os três elementos do Rio de Janeiro: “Lembro [quando os conheci]. Foi no Rádio Clube, bicho [Rádio Clube: danceteria paulistana aberta nos anos 1980, no bairro de Pinheiros]… em 1983/4. Eu lembro bem deles tocando. E lembro do Bi, cara, que tinha aquele topetão, parecia que era do Stray Cats, de brinco”. No mesmo making-of, apareceu Paulo Miklos: “O primeiro encontro nosso foi em Brasília, se não me engano; a gente dividiu um show. Isso foi em… 1984, vai… 1985, talvez. Foi por aí”.

2) Gil, 20 anos luz: foi dada a largada

Entre 10 e 17 de novembro de 1985, Gilberto Gil organizou uma semana para celebrar seus 20 anos de carreira, em São Paulo. A semana Gil, 20 anos luz trazia não só shows do cantor (todos no Palácio das Convenções do Anhembi), mas também debates sobre a obra do cantor e compositor, mais exibições de vídeos e filmes em que ele participou. A última noite de shows no Anhembi foi intitulada “Esse tal de roque”; nela, Gil receberia não só gente que há muito batalhava e dignificava o rock aqui (Erasmo Carlos e Sérgio Dias), mas também alguns dos novatos roqueiros que já cavavam o espaço no cenário da música brasileira. Entre esses, claro, os Paralamas e os Titãs.

Pois nesse dia ocorreu um fato marcante para ambos os grupos. Simpático àquela nova geração que surgia, Gil convidou os Paralamas para o palco com a frase: “Agora, com vocês, três caras que fazem um som com o peso de uma carreta!”. Os três tocaram com Gil (com a bateria de João Barone sem os pratos do contratempo; afinal, ele sofrera um acidente de carro, quebrara a perna e ainda se recuperava). Os próximos convidados da noite eram os Titãs, na época promovendo Televisão, o segundo álbum. Com a melhor das intenções, Gil os convidou, lembrando “Sonífera ilha”: “E olha que curioso: esses que vêm aí fazem um som tão pequenininho quanto um radinho de pilha”.

Pois bem: a brincadeira inofensiva soou para muitos como uma maldade, uma comparação sonora absolutamente desfavorável ao (na época) octeto paulistano. Pior: naquela semana, em 13 de novembro, Arnaldo Antunes e Tony Bellotto haviam sido presos. Ou seja: não só os Titãs subiram ao palco desfalcados, mas também subiram sob pressão. Menos mal que levaram numa boa a brincadeira de Gil, a quem admiravam. Tocaram normalmente, e não ficaram mágoas. Mas aquela brincadeira feita em 17 de novembro de 1985, de certa forma, deu a largada à amistosa rivalidade entre Paralamas e Titãs.

Para muitos, tornou-se impossível não comparar o trabalho de ambas. Basta mencionar o que ocorreu em 1986: no mesmo estúdio (o Nas Nuvens, propriedade do produtor Liminha), ambas gravaram os trabalhos que são considerados suas obras-primas, quase em sequência. Tão logo os Paralamas terminaram os trabalhos com Selvagem?, os Titãs começaram a preparar Cabeça Dinossauro. O próprio Liminha comentou a flagrante diferença de comportamento, ao jornalista Ricardo Alexandre, para o livro Dias de luta: “Havíamos acabado de gravar o Ultraje [Nós vamos invadir sua praia, de 1985], superdivertido; logo depois os Paralamas, todos boa gente, astral lá em cima; aí chegam os Titãs, e isso aqui virou um manicômio. O Arnaldo com a cabeça raspada até a metade, a banda sentada aos pares olhando para o infinito, um negócio maaaal”. Talvez a síntese dessa rivalidade venha de algo que o vocalista/tecladista/baixista dos Titãs, Sérgio Britto, escreveu em seu blog, em 2007: “O Liminha costumava dizer que os Paralamas eram mais Beatles, e os Titãs, mais Stones. Não deixa de ter razão…”.

3) Rivalidade sempre amistosa

Como a abertura já disse, por mais que houvesse certo espírito de competição, a amizade sempre venceu na relação entre as “nêmesis”. Um bom exemplo está em A vida até parece uma festa, de 2008, documentário com toda a história da banda paulista: tão logo terminaram as gravações de Jesus não tem dentes no país dos banguelas, os Titãs e Liminha convidaram vários amigos para uma festa de audição do disco, no próprio Nas Nuvens. Entre os convidados, claro, Herbert, João e Bi, que aparecem no filme. E não custa lembrar: no mesmo 1987 em que Jesus… foi gravado e lançado, os Paralamas haviam apresentado D, com o show no Festival de Jazz de Montreux. E uma das versões ao vivo, para “Selvagem”, traz uma citação que até hoje perdura nos shows dos Paralamas: a do refrão de “Polícia”, no meio de “Selvagem”.

4) “O que a gente vai fazer depois disso, cara?”

No fim da década de 1980, com a movimentação das bandas perdendo força e respaldo de mídia e público, Paralamas e Titãs ainda conseguiam escapar da queda brusca, fazendo trabalhos elogiados. E seguiam se inspirando mutuamente. Uma boa história mostra isso: em 1989, os Titãs lançaram Õ Blésq Blom – álbum considerado dos mais bem produzidos na história da música brasileira até ali, pelo preciosismo técnico, riqueza de timbres e experimentações (sem contar os sucessos: “Flores” e “O pulso” são do disco). E a perfeição sonora do disco impressionou Herbert Vianna.  Convidado por Liminha para ouvir o álbum no estúdio, pouco antes deste ir para as lojas, o cantor/compositor/guitarrista dos Paralamas ficou tão impressionado com Õ Blésq Blom que apenas indagou, após ouvir tudo: “O que a gente vai fazer depois disso, cara?”.

Pois os Paralamas fizeram Os grãos, também elogiado por alguns (e criticado por outros) pela preocupação com detalhes técnicos e as experimentações nos arranjos. Falando a Ana Maria Bahiana para a revista Bizz, em 1991, enquanto os Paralamas mixavam Os Grãos no estúdio Music Grinder, em Los Angeles, Herbert lembrou o impacto de Õ Blésq Blom: “Quem for entrar no estúdio hoje vai ter de correr atrás do padrão que estamos estabelecendo com este disco. Foi a mesma coisa que a gente sentiu depois de ouvir Õ Blésq Blom: ‘Caralho, fazer um disco depois deste vai ser uma responsabilidade!”. Tempos depois, Herbert repetiu a ideia: “Quanto ao som, eu digo, afirmo e sustento que Os grãos e Õ Blésq Blom são dois marcos em qualidade de som de estúdio no Brasil. Esses dois discos têm qualidade mundial de som”.

5) A parceria com José Fortes

Naquelas alturas, a amizade já estava consolidada. Por muitas vezes, na virada dos anos 1980 para os anos 1990, os Paralamas davam canjas nos shows dos Titãs, e vice-versa. Uma participação marcante ocorreu em 24 de junho de 1990: naquele mesmo dia, a Seleção Brasileira fora eliminada pela Argentina, na Copa do Mundo que ocorria na Itália. Sem problemas: em temporada no Canecão carioca com o show de Õ Blésq Blom, os Titãs “consolaram” quem estivesse triste pelas mazelas futebolísticas. E no bis, Charles Gavin cedeu seu lugar na bateria a João Barone, em “Família”.

Assim, quando os amigos titânicos decidiram mudar de empresário, não foi difícil pensar num sucessor para trabalhar com o ainda octeto: José Fortes, empresário dos Paralamas. E “Zé” também cuidou dos negócios dos Titãs, de 1991 a 1995, numa relação que sequer teve papel passado, tal a confiança dos paulistas no empresário/parceiro dos Paralamas. Foi um período de muitas histórias e muita proximidade entre os grupos. O primeiro fruto desse importante ponto em comum entre as duas bandas não demorou a acontecer.

6) O Hollywood Rock de 1992

Em janeiro de 1992, como ocorrera em 1988 e 1990 (e ocorreria até 1996), o Hollywood Rock foi mais um festival a chamar a atenção do público brasileiro. Mas naquela edição de 1992, houve uma importância adicional: pela primeira vez, uma banda brasileira seria headliner (fecharia a noite com o show principal) de um grande festival realizado aqui. A quem coube a honraria? Aos Paralamas. E aos Titãs. Uma banda faria o seu show, depois a outra se apresentaria, e as duas se uniriam para uma grande jam session encerrando a noite.

Um “ensaio aberto” foi feito em Governador Valadares, cidade mineira, ainda em 1991. E em 18 de janeiro de 1992, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, os Paralamas abriram para os Titãs no Hollywood Rock (curiosidade: nessa noite, Nando Reis cantou e tocou baixo forçosamente sentado, pois rompera os ligamentos do joelho jogando futebol). Uma semana depois, na Praça da Apoteose, o Rio de Janeiro viu a ordem inversa no HR: Titãs primeiro, Paralamas depois. O que não mudou foi o grand finale: as duas bandas tocando “Diversão”, “Pólvora”, “Comida” (com Herbert ajudando Arnaldo nos vocais – Arnaldo deixaria os Titãs no fim daquele 1992), “O beco” (com Paulo Miklos cantando), “Selvagem” e, enfim, “Marvin”, com Nando e Herbert dividindo as vozes.

O vídeo da apresentação conjunta dos “Titãs do Sucesso” (assim o Jornal do Brasil batizou o supergrupo, na resenha do show carioca) na Sapucaí está aí abaixo. Estava iniciada uma experiência marcante.

 

7) Como os Paralamas “ajudaram” os Titãs no Acústico MTV

Sexta-feira, 18 de outubro de 1996. São Paulo. Na hoje desativada casa de shows Olympia, os Paralamas faziam o primeiro dos três shows que teriam ali, estreando o espetáculo baseado no recém-lançado 9 Luas – que já tinha “Lourinha Bombril” estourada nas rádios, com outros sucessos em potencial, como “La bella luna”. Três membros dos Titãs prestigiavam a apresentação dos amigos: Tony Bellotto, Paulo Miklos e Charles Gavin. A certa altura, Herbert comenta com a plateia que todos da banda estavam exultantes com aquele sucesso, e anuncia que os PdS prometiam um trabalho acústico para dali a alguns meses. Havia um set acústico na turnê de 9 Luas, e não demoraria muito para que começassem os lendários “shows surpresa” que “prepararam” o trio e os músicos de apoio para o Acústico MTV dos Paralamas.

Naquela hora, imediatamente Miklos, Bellotto e Gavin deixaram o Olympia, furiosos. Não com Herbert nem com os Paralamas, mas com a MTV. Explica-se: os Titãs começaram 1996 já com a proposta do especial desplugado para a emissora. Só que a WEA, gravadora onde estavam, não abria mão de ter divulgação maciça do Acústico MTV nas revistas da Grupo Abril, também dono da MTV brasileira. Só que o Grupo Abril já não tinha mais 100% das ações da MTV – logo, não poderia fazer essa ação de divulgação como permuta. Ainda assim, a WEA não queria nem saber. Resultado: impasse.

Pior: as retaliações já tinham começado. Os Titãs decidiram oferecer o projeto do acústico deles ao SBT e ao antigo programa Som Brasil, da TV Globo. A MTV, então, reagiu: fez a proposta aos Paralamas, para que fossem eles os protagonistas do Acústico MTV. Os três titãs supracitados souberam disso somente quando Herbert falou, no show citado. Chisparam fora do Olympia, e viajaram no dia seguinte para Florianópolis, onde os Titãs tinham um show marcado. Marcaram um almoço na capital catarinense para acelerar as tratativas. E Charles Gavin lamentou: “Vamos perder o Acústico para os Paralamas. Um projeto que estava nas nossas mãos!”. Mas o guitarrista Marcelo Fromer (o membro dos Titãs mais afeito a negociações e burocracias) deixou de lamúrias e foi imperioso: “Ah, mas não vamos perder mesmo!”. Ligou para o português Paulo Junqueiro, diretor artístico da WEA, e falou que ele tinha de defender mais o lado da banda e marcar urgentemente uma reunião com a MTV.

Reunião marcada para a semana seguinte, WEA e MTV enfim se acertaram, e o Acústico MTV de 1997 ficou com os Titãs. E como Herbert comentou no making-of do Acústico MTV paralâmico (lançado em 1999), o lançamento “arrombou”. O destino transformou os Titãs num dos grandes sucessos radiofônicos/mercadológicos do Brasil em 1997: 1,8 milhão de cópias vendidas daquele álbum, e vários hits desplugados tomando as rádios naquele ano – “Pra dizer adeus” e “Os cegos do castelo”, citando só dois. E tudo porque Herbert citou a proposta da MTV no palco do Olympia, “ajudando” os Titãs…

8)  Sempre Livre Mix

Como já dito, o Acústico MTV iniciou a fase de maior sucesso comercial dos Titãs – sucesso prosseguido com Volume Dois (1998). Juntamente à trajetória regular dos Paralamas (que também haviam mantido o relativo êxito de crítica e público, com Hey Na Na), as duas bandas mantinham os nomes em alta no fim da década de 1990. Ao mesmo tempo, seguia a lembrança das apresentações antológicas no Hollywood Rock de 1992. Não demorou muito e veio a ideia: por que não repetir a dose?

Rapidamente os empresários das duas bandas chegaram a um acordo (José Fortes, ainda e sempre com os Paralamas; representando os Titãs desta vez, Manoel Poladian). E patrocinados pela Johnson & Johnson, Paralamas e Titãs foram a primeira dupla unida no projeto Sempre Livre Mix. Durante o ano de 1999, pelo menos duas vezes por mês, os amigos se uniam para shows pelo Brasil, no mesmo esquema do Hollywood Rock: cada banda tocava por 40 minutos – embora estivessem promovendo o Acústico MTV, os Paralamas faziam o show “elétrico” -, e ambas se uniam no final para tocarem sete músicas: “O beco”, “Ska”, “Pólvora”, “Selvagem”, “Diversão”, “Comida” e “Lugar nenhum”.

A maratona foi iniciada em São Paulo, em 13 de abril de 1999. E passou por Aracaju, Brasília, Campinas, Goiânia, novamente São Paulo… até terminar, em 20 de novembro, com um show no Metropolitan, casa de shows no Rio recentemente reativada. E essa apresentação carioca foi gravada e disponibilizada num CD, entregue de brinde a quem comprasse o absorvente íntimo feminino que dava nome ao projeto que uniu os Paralamas aos Titãs pela segunda vez.

 

9) A lembrança carinhosa

2001 trouxe dois momentos dolorosos na lembrança dos dois grupos. Os Paralamas viveram momentos “de dor e esperança” – conforme nota divulgada em versão antiga do site -, após o acidente de Herbert. E os Titãs acompanharam proximamente o sofrimento: Tony Bellotto, Branco Mello, Charles Gavin e Nando Reis visitaram algumas vezes o Copa D’Or, hospital carioca onde Herbert ficou internado.

Mas mesmo em meio à dor pela perda de um de seus guitarristas, os Titãs não esqueceram dos amigos que também precisavam de ajuda. E a lembrança carinhosa está registrada no encarte de A melhor banda de todos os tempos da última semana, lançado ainda em 2001. Nos agradecimentos, uma frase singela e comovente dos Titãs está lá: “Um grande abraço para a família Paralamas”.

10) 25 anos de rock

O tempo passou, mas as relações próximas continuaram. Como citado no início destes momentos, Uns dias – Ao vivo trouxe participações tanto de Paulo Miklos quanto de Nando Reis (que deixara os Titãs em 2002). Já como artista solo, Nando ainda cedeu “Pétalas”, para o repertório de Hoje, disco lançado pelos Paralamas em 2005. Porém, já se passara certo tempo desde o Sempre Livre Mix. E a vontade de juntar os três cariocas aos (então) cinco paulistas crescia novamente.

E em 2007, bastou uma reunião casual entre as duas bandas num hotel de Porto Alegre (ambas estavam na capital gaúcha para shows próprios), e nascia a ideia do projeto 25 anos de rock, lembrando a “idade” de ambas. Mais alguns meses se passaram, e enfim foi fechado o acordo para mais uma turnê. Em seu blog, na época, Sérgio Britto lembrou uma frase de José Fortes: “Tá legal. Só tem uma coisa: se a gente for fazer, temos a obrigação de fazer direito!”. Fizeram. Agora, com propósito invertido: na maioria do tempo, as duas bandas ficavam juntas em cima do palco, e tinham apenas um pequeno espaço para sets individuais. E uma participava mais do repertório da outra: o show abria com Herbert Vianna cantando “Diversão”, depois Paulo Miklos seguia com “O Calibre” e assim ia.

 

E a turnê 25 anos de rock ainda contou com vários convidados nas capitais por onde passou naquele 2007. Em Porto Alegre, Fito Paez surgiu da Argentina; em Salvador, Carlinhos Brown esteve no show; em Belo Horizonte, Dado Villa-Lobos figurou no palco. Fora os convidados frequentes: vez por outra, deram canja em vários shows daquela turnê Marcelo Camelo, Arnaldo Antunes e Andreas Kisser. Finalmente, em janeiro de 2008, a apresentação no Rio de Janeiro, na Marina da Glória, foi gravada (contando com Andreas, Arnaldo e um convidado inédito: Samuel Rosa). E virou o combo CD/DVD Paralamas e Titãs juntos & ao vivo, lançado naquele ano.

E embora ela tenha desacelerado após a gravação de 2008, essa turnê não teve um fim “declarado”. Tanto que, muito esporadicamente, Paralamas e Titãs ainda tocam juntos por aí. Basta lembrar o show que abriu o Rock in Rio de 2011 (já sem Charles Gavin, que se afastou dos Titãs em 2010), com a Orquestra Sinfônica Brasileira – e Maria Gadú participando em “Lourinha Bombril”. E o show deste sábado, em Brasília, é mais um capítulo da “turnê” das “nêmesis” Paralamas e Titãs. Concorrentes, sim; amigos, mais ainda.

Participação especial: Herbert Vianna [3]

Chegamos à última parte da série de participações especiais de Herbert Vianna fora dos Paralamas!

Daniela Mercury

Em 1991, ela ainda começava a aparecer fora da Bahia, mesmo já tendo longa carreira no estado natal – não só nos trios elétricos e bares da vida, mas também como cantora de uma banda conhecida dos baianos, a Companhia Clic. Mas lançou naquele ano seu primeiro disco solo, homônimo. E se o sucesso que a catapultou aos olhos do Brasil foi “Swing da cor”, já havia ali uma canção de Herbert: “Milagres”.

Herbert foi até cogitado pela própria para produzir seu segundo álbum, mas a agenda não lhe permitiria dedicação. Então, ele passou a dica ao produtor e amigo Liminha. Este nem se entusiasmou muito a princípio, mas HV foi enfático, conforme revelou em entrevista ao pessoal do Casseta & Planeta, em 1995: “Liminha, você vai ganhar muito dinheiro com essa menina!”. Pois é: a menina era Daniela Mercury.

E ali as coisas se encaixaram. Liminha produziu O canto da cidade (1992), álbum que definitivamente transformou Daniela numa estrela de primeira grandeza da música brasileira. E Herbert fez questão de estar presente: não só cedeu “Só pra te mostrar” à amiga, mas também participou da gravação, cantando e tocando guitarra. E mais: ainda participou do programa especial sobre O canto da cidade, para a TV Globo, ainda em 1992, repetindo o dueto em “Só pra te mostrar” – que ele relembrou em Victoria.

Em 1994,  Música de rua, o terceiro álbum de Daniela, teve nova colaboração de Herbert: ele cedeu outra composição, “Sempre te quis” (gravada pelos Paralamas em 9 Luas), novamente tocando guitarra na versão original. E desde então, Daniela desenvolveu a própria carreira – sempre acenando com gratidão e reverência a Herbert, como fica claro nesse vídeo abaixo.

 

Titãs (e carreira solo)

Os Paralamas sempre foram muito próximos dos Titãs. Para começo de conversa, basta lembrar o álbum ao vivo que ambos fizeram juntos. Mas no início da década de 1990, a proximidade era ainda maior, até por José Fortes empresariar as duas bandas na época. Não era necessário muito mais para dar início a colaborações. E Herbert fez isso tanto com um egresso dos Titãs como com a própria banda.

Em 12 de janeiro (1995), primeiro álbum solo de Nando Reis – então ainda cantor e baixista dos Titãs -, Herbert colocou a guitarra solo nos quatro grandes sucessos do disco: “Me diga”, “A fila”, “Meu aniversário” e “E.C.T.”. No mesmo ano, os Titãs voltaram da pausa de um ano, lançando o álbum Domingo. E ali Herbert novamente esteve (assim como Barone): gravou o solo de guitarra em “O caroço da cabeça”, parceria dele com Nando e Marcelo Fromer. “O caroço da cabeça” foi outra canção registrada pelos Paralamas posteriormente, em 9 Luas.

Duas vezes Herbert, sempre Herbert

Em 1996, a revista Placar organizou o lançamento de um disco, produzido por Pierre Aderne, no qual os hinos de 16 grandes clubes do futebol brasileiro eram reinterpretados por gente do rock e da MPB. Os Paralamas andavam frequentando a página da revista de esportes (na época, também falando de música): em 1995, haviam sido até escolhidos como a banda brasileira preferida dos jogadores de futebol da época, em votação de Placar. De mais a mais, a paixão de Herbert pelo Flamengo nunca foi segredo para ninguém.

Pedir uma versão do conhecido hino composto por Lamartine Babo era tentador. E ele aceitou: gravou a voz e a guitarra do hino flamenguista no trabalho de 1996, cantando junto com outros célebres flamenguistas da música: Neguinho da Beija-Flor, Falcão (O Rappa) e os MCs Júnior e Leonardo, autores do “Rap do centenário”, sucesso na torcida rubro-negra em 1995.

Deu muito certo. Tanto que em 2004, quando a Placar fez nova versão do álbum com outros artistas, os canais de voz e de guitarra que Herbert gravara em 1996 para o hino rubro-negro foram reaproveitados na nova releitura, que ainda trouxe Gabriel O Pensador como convidado. Seja como for, HV certamente teria um desgosto profundo se não tivesse homenageado assim o time do coração.

Músicas iguais, nomes diferentes

Aqui, dois lances curiosos. Em dois momentos, canções de Herbert foram gravadas duas vezes, com dois nomes diferentes. Em 1996, quando lançou o álbum Mondo Diablo, o Nenhum de Nós registrou “Todas as coisas”, parceria de Herbert com o amigo Thedy Corrêa. Pois bem: em 2012, quando gravou a mesma música em Victoria, Herbert mudou o título para “Sinto muito”, além de fazer algumas mudanças na letra.

E aconteceu o mesmo quando Herbert cedeu uma canção ao grupo vocal Fat Family. Em alta no ano de 1998, o FF lançou seu primeiro álbum solo trazendo no repertório “Eu sou só um”. Em 2002, os Paralamas reaproveitaram a canção em Longo Caminho, mas com o título alterado: trata-se de “Flores e espinhos”.

A parceria com Paulo Sérgio Valle

No fim da década, Herbert iniciou uma parceria com um colega seu num clube de voo, no Rio de Janeiro: o compositor Paulo Sérgio Valle. Que, por sinal, já tinha outra profícua parceria na música brasileira, com o irmão Marcos Valle. Esta parceria rendeu poucas canções. Mas quase sempre marcantes. A primeira delas foi cedida para Ivete Sangalo, o primeiro disco solo da homônima, em 1999. E tornou-se um dos grandes sucessos dela: claro, “Se eu não te amasse tanto assim”. Depois, Herbert e Paulo Sérgio fizeram uma canção com a intenção de oferecê-la a Roberto Carlos. Não deu certo com ele, mas funcionou com Maria Bethânia: “Quando você não está aqui” foi registrada pela cantora em Maricotinha, disco lançado em 2001. Naquele ano, Bethânia ainda cantou “Quando você não está aqui” no show de comemoração de seus 35 anos de carreira – lançado em 2012, no DVD Noite luzidia. Com Herbert em recuperação de seu acidente, convidou ao palco dois colegas de geração e amigos do compositor: Arnaldo Antunes e Branco Mello.

Anos 2000/2010

No início dos anos 2000, Herbert estava a todo vapor. Não bastasse a intensa atividade com os Paralamas (então, em turnê com o Acústico), compunha em profusão, principalmente para cantoras. Ivete Sangalo novamente se aproveitou da fase inspirada: se “Se eu não te amasse tanto assim” já fora sucesso em 1999, a nativa de Juazeiro gravou nova canção de Herbert em Beat Beleza, seu segundo álbum, de 2000. Outro sucesso: “A lua q eu t dei” – assim está o título no encarte -, composição que ele fez sozinho. De quebra, ainda gravou o solo de guitarra da versão original de Ivete. Ainda em 2000, Kátia B, disco de Kátia Bronstein – cujas participações de Barone já estão no texto sobre ele -, trouxe “Noites de sol, dias de lua”, composição de Herbert, que também tocou guitarra em outras canções do disco. Ambas foram relembradas em Victoria.

2001. Não é preciso lembrar o que aconteceu. Todo mundo sabe. E talvez a canção que simbolize a melancolia daqueles dias seja “Junto ao mar”: uma composição de Herbert, gravada em Buganvília, segundo álbum do grupo Penélope. Mas as canções do cantor/guitarrista dos Paralamas seguiam por aí. Em Bossa, seu disco daquele ano, Zizi Possi cantou “Eu só sei amar assim” (com Barone na bateria, como se leu aqui). Ainda em 2001, o tecladista Ari Borges gravou outra de Herbert: “Blues da garantia”, que ele recriou em Victoria.

 

Em 2002, a recuperação sonhada e desejada era um fato. Mas enquanto ele se recompunha para voltar aos palcos com os Paralamas, as músicas mantinham a lembrança. Com a formação original reunida após 13 anos, o RPM aproveitou uma canção cedida pelo colega de geração no álbum ao vivo, divulgado pela MTV, que celebrou o reencontro: “Vem pra mim”. No mesmo ano, o Cidade Negra fez o seu Acústico. E uma das inéditas contidas nele fez involuntariamente a ponte para o retorno triunfal de Herbert ao trabalho: era “Soldado da paz”, que os Paralamas gravaram em Longo Caminho.

Fora as participações já citadas, Herbert também recomeçou as aparições no trabalho de amigos. Se a ligação com Zizi Possi era conhecida desde a gravação dela para “Meu erro”, em 1989, HV estabelecia a ponte com a filha: em 2007, A vida é mesmo agora, álbum ao vivo de Luiza Possi, trouxe Herbert na voz e na guitarra da versão dela para “Quase um segundo”.

A retomada das relações musicais novamente superava barreiras: em 2010, os Pericos lançaram Pericos & Friends, álbum que celebrou os 25 anos do grupo argentino. E Herbert esteve nele, cantando “Casi nunca lo ves”. Naquele ano, a cantora Leila Pinheiro ainda registrou Meu segredo mais sincero, álbum em que revisitava a obra de Renato Russo. Compreensível que Herbert estivesse nele, com as guitarras de “Quando você voltar”.

Fora a participação com a cantora Negra Li numa série de comerciais da Fiat, 2014 teve Herbert marcando presença em “Não sei se te contei”, música que intitulou o álbum da cantora soteropolitana Thathi.

E a mais recente colaboração de Herbert fora dos Paralamas veio no fim do ano passado. Gravando um DVD para o Canal Brasil, onde reviu sua carreira tanto no Penélope quanto após ele, a cantora e compositora Érika Martins repetiu duelo marcante: “Inbetween days”, versão do Cure, na qual ela fora a convidada de Herbert em O som do sim. Como em 2000, Herbert fazia a voz e a guitarra.

De fato, compulsivo. Que bom que é assim, por tudo que a música representou na vida de Herbert.

***

Confira a parte 1 e a parte 2 das participações de Herbert.

Confira as participações de Bi Ribeiro e João Barone.

 

Rock in Rio – Fotos e Registros

 

Continuando nosso resgate da história dos Paralamas do Sucesso no Rock in Rio, apresentamos agora uma galeria especial de fotos e registros das 2 apresentações da banda no Rock in Rio de 1985 (13 e 16 de janeiro) e do show de abertura de 23 setembro de 2011 ao lado de Milton Nascimento, Titãs e a Orquestra Sinfônica Brasileira.

Tem foto da credencial de 1985 autografada pelo Rod Stewart, cópia do ingresso e do cartaz de programação de 1985, Paralamas e Titãs em 2011, reportagens antigas e muito mais. Confere só a nossa galeria especial: http://bit.ly/fotosrockinrioparalamas.

Fique de olho aqui no site, porque tem muita coisa bacana que vamos publicar ainda até o dia 18, data de abertura do Rock in Rio 2015.

 

 

Dose dupla no Rock in Rio

Lá se foram 30 anos desde a primeira apresentação dos Paralamas no Rock in Rio. Aqueles 2 shows históricos, em 13 e 16 de janeiro de 1985, marcaram de vez a carreira da banda, que foi reconhecida como o grande show nacional daquela edição. Eis que, em 2015, os Paralamas do Sucesso retornam em dose dupla para sua terceira participação no Rock in Rio (além de 1985, a banda participou em 2011 em show conjunto com os Titãs).

Para homenagear os 30 anos do primeiro Rock in Rio, o festival prepara um grande show de abertura no dia 18 de setembro que  reunirá grandes nomes da música brasileira que participaram das edições anteriores: Paralamas, Titãs, Erasmo Carlos, Samuel Rosa e Haroldo Ferreti (Skank), Frejat, Jota Quest, Andreas Kisser (Sepultura), Ivan Lins, Ney Matogrosso, Blitz, George Israel e Ivete Sangalo, entre outros.

Além disso, os Paralamas voltam ao Palco Mundo no dia 20 de setembro para uma apresentação solo. Uma curiosidade: o show será na mesma noite em que Rod Stewart se apresentará, exatamente como foi em 1985, quando o cantor inglês encerrou as duas noites em que a banda brasileira tocou.

A imagem em destaque é da credencial utilizada em 1985 por um integrante da nossa equipe, e que foi autografada por Rod Stewart.