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Paralamas e Titãs: 10 momentos

Nêmesis. Na mitologia grega, era filha de Nyx, a deusa da noite, e era responsável por manter a equanimidade entre os seres, combatendo a desmesura. Na língua portuguesa moderna, porém, “nêmesis” virou o arqui-inimigo a ser combatido, mesmo que tenha características muito próximas a quem o persegue. Tire-se toda a carga negativa desse significado; considere-se que “nêmesis” é um colega para quem, ao mesmo tempo, se olha com admiração, mas com certa competitividade. Pois bem: é exatamente essa a relação que uniu e une os Paralamas do Sucesso aos Titãs. Amizade e competição, lado a lado, fosse qual fosse a fase de ambas (e fosse qual fosse a formação titânica).

Felizmente, para quem gosta delas, a competitividade sempre foi superada pela gigante admiração mútua, que já rendeu participações e apresentações em conjunto – como a que ocorrerá neste sábado, 5 de março de 2016, no ginásio Nilson Nelson, em Brasília, pelo festival Brasília Rock Show. Com mais esse capítulo na longa história, nada melhor do que vermos mais uma lista aqui no site. Eis aí, então, dez momentos em que Titãs e Paralamas caminharam paralelamente em suas histórias, ainda que sempre com coisas em comum.

1) Os primeiros contatos

Como é previsível, Titãs e Paralamas se conheceram nas danceterias e gravações de programas de auditório da vida, em que despontavam as bandas que começavam a movimentar o rock brasileiro nos anos 1980. Em depoimento ao making-of disponível no DVD de Uns dias – Ao vivo, Nando Reis lembrou-se de quando conheceu os três elementos do Rio de Janeiro: “Lembro [quando os conheci]. Foi no Rádio Clube, bicho [Rádio Clube: danceteria paulistana aberta nos anos 1980, no bairro de Pinheiros]… em 1983/4. Eu lembro bem deles tocando. E lembro do Bi, cara, que tinha aquele topetão, parecia que era do Stray Cats, de brinco”. No mesmo making-of, apareceu Paulo Miklos: “O primeiro encontro nosso foi em Brasília, se não me engano; a gente dividiu um show. Isso foi em… 1984, vai… 1985, talvez. Foi por aí”.

2) Gil, 20 anos luz: foi dada a largada

Entre 10 e 17 de novembro de 1985, Gilberto Gil organizou uma semana para celebrar seus 20 anos de carreira, em São Paulo. A semana Gil, 20 anos luz trazia não só shows do cantor (todos no Palácio das Convenções do Anhembi), mas também debates sobre a obra do cantor e compositor, mais exibições de vídeos e filmes em que ele participou. A última noite de shows no Anhembi foi intitulada “Esse tal de roque”; nela, Gil receberia não só gente que há muito batalhava e dignificava o rock aqui (Erasmo Carlos e Sérgio Dias), mas também alguns dos novatos roqueiros que já cavavam o espaço no cenário da música brasileira. Entre esses, claro, os Paralamas e os Titãs.

Pois nesse dia ocorreu um fato marcante para ambos os grupos. Simpático àquela nova geração que surgia, Gil convidou os Paralamas para o palco com a frase: “Agora, com vocês, três caras que fazem um som com o peso de uma carreta!”. Os três tocaram com Gil (com a bateria de João Barone sem os pratos do contratempo; afinal, ele sofrera um acidente de carro, quebrara a perna e ainda se recuperava). Os próximos convidados da noite eram os Titãs, na época promovendo Televisão, o segundo álbum. Com a melhor das intenções, Gil os convidou, lembrando “Sonífera ilha”: “E olha que curioso: esses que vêm aí fazem um som tão pequenininho quanto um radinho de pilha”.

Pois bem: a brincadeira inofensiva soou para muitos como uma maldade, uma comparação sonora absolutamente desfavorável ao (na época) octeto paulistano. Pior: naquela semana, em 13 de novembro, Arnaldo Antunes e Tony Bellotto haviam sido presos. Ou seja: não só os Titãs subiram ao palco desfalcados, mas também subiram sob pressão. Menos mal que levaram numa boa a brincadeira de Gil, a quem admiravam. Tocaram normalmente, e não ficaram mágoas. Mas aquela brincadeira feita em 17 de novembro de 1985, de certa forma, deu a largada à amistosa rivalidade entre Paralamas e Titãs.

Para muitos, tornou-se impossível não comparar o trabalho de ambas. Basta mencionar o que ocorreu em 1986: no mesmo estúdio (o Nas Nuvens, propriedade do produtor Liminha), ambas gravaram os trabalhos que são considerados suas obras-primas, quase em sequência. Tão logo os Paralamas terminaram os trabalhos com Selvagem?, os Titãs começaram a preparar Cabeça Dinossauro. O próprio Liminha comentou a flagrante diferença de comportamento, ao jornalista Ricardo Alexandre, para o livro Dias de luta: “Havíamos acabado de gravar o Ultraje [Nós vamos invadir sua praia, de 1985], superdivertido; logo depois os Paralamas, todos boa gente, astral lá em cima; aí chegam os Titãs, e isso aqui virou um manicômio. O Arnaldo com a cabeça raspada até a metade, a banda sentada aos pares olhando para o infinito, um negócio maaaal”. Talvez a síntese dessa rivalidade venha de algo que o vocalista/tecladista/baixista dos Titãs, Sérgio Britto, escreveu em seu blog, em 2007: “O Liminha costumava dizer que os Paralamas eram mais Beatles, e os Titãs, mais Stones. Não deixa de ter razão…”.

3) Rivalidade sempre amistosa

Como a abertura já disse, por mais que houvesse certo espírito de competição, a amizade sempre venceu na relação entre as “nêmesis”. Um bom exemplo está em A vida até parece uma festa, de 2008, documentário com toda a história da banda paulista: tão logo terminaram as gravações de Jesus não tem dentes no país dos banguelas, os Titãs e Liminha convidaram vários amigos para uma festa de audição do disco, no próprio Nas Nuvens. Entre os convidados, claro, Herbert, João e Bi, que aparecem no filme. E não custa lembrar: no mesmo 1987 em que Jesus… foi gravado e lançado, os Paralamas haviam apresentado D, com o show no Festival de Jazz de Montreux. E uma das versões ao vivo, para “Selvagem”, traz uma citação que até hoje perdura nos shows dos Paralamas: a do refrão de “Polícia”, no meio de “Selvagem”.

4) “O que a gente vai fazer depois disso, cara?”

No fim da década de 1980, com a movimentação das bandas perdendo força e respaldo de mídia e público, Paralamas e Titãs ainda conseguiam escapar da queda brusca, fazendo trabalhos elogiados. E seguiam se inspirando mutuamente. Uma boa história mostra isso: em 1989, os Titãs lançaram Õ Blésq Blom – álbum considerado dos mais bem produzidos na história da música brasileira até ali, pelo preciosismo técnico, riqueza de timbres e experimentações (sem contar os sucessos: “Flores” e “O pulso” são do disco). E a perfeição sonora do disco impressionou Herbert Vianna.  Convidado por Liminha para ouvir o álbum no estúdio, pouco antes deste ir para as lojas, o cantor/compositor/guitarrista dos Paralamas ficou tão impressionado com Õ Blésq Blom que apenas indagou, após ouvir tudo: “O que a gente vai fazer depois disso, cara?”.

Pois os Paralamas fizeram Os grãos, também elogiado por alguns (e criticado por outros) pela preocupação com detalhes técnicos e as experimentações nos arranjos. Falando a Ana Maria Bahiana para a revista Bizz, em 1991, enquanto os Paralamas mixavam Os Grãos no estúdio Music Grinder, em Los Angeles, Herbert lembrou o impacto de Õ Blésq Blom: “Quem for entrar no estúdio hoje vai ter de correr atrás do padrão que estamos estabelecendo com este disco. Foi a mesma coisa que a gente sentiu depois de ouvir Õ Blésq Blom: ‘Caralho, fazer um disco depois deste vai ser uma responsabilidade!”. Tempos depois, Herbert repetiu a ideia: “Quanto ao som, eu digo, afirmo e sustento que Os grãos e Õ Blésq Blom são dois marcos em qualidade de som de estúdio no Brasil. Esses dois discos têm qualidade mundial de som”.

5) A parceria com José Fortes

Naquelas alturas, a amizade já estava consolidada. Por muitas vezes, na virada dos anos 1980 para os anos 1990, os Paralamas davam canjas nos shows dos Titãs, e vice-versa. Uma participação marcante ocorreu em 24 de junho de 1990: naquele mesmo dia, a Seleção Brasileira fora eliminada pela Argentina, na Copa do Mundo que ocorria na Itália. Sem problemas: em temporada no Canecão carioca com o show de Õ Blésq Blom, os Titãs “consolaram” quem estivesse triste pelas mazelas futebolísticas. E no bis, Charles Gavin cedeu seu lugar na bateria a João Barone, em “Família”.

Assim, quando os amigos titânicos decidiram mudar de empresário, não foi difícil pensar num sucessor para trabalhar com o ainda octeto: José Fortes, empresário dos Paralamas. E “Zé” também cuidou dos negócios dos Titãs, de 1991 a 1995, numa relação que sequer teve papel passado, tal a confiança dos paulistas no empresário/parceiro dos Paralamas. Foi um período de muitas histórias e muita proximidade entre os grupos. O primeiro fruto desse importante ponto em comum entre as duas bandas não demorou a acontecer.

6) O Hollywood Rock de 1992

Em janeiro de 1992, como ocorrera em 1988 e 1990 (e ocorreria até 1996), o Hollywood Rock foi mais um festival a chamar a atenção do público brasileiro. Mas naquela edição de 1992, houve uma importância adicional: pela primeira vez, uma banda brasileira seria headliner (fecharia a noite com o show principal) de um grande festival realizado aqui. A quem coube a honraria? Aos Paralamas. E aos Titãs. Uma banda faria o seu show, depois a outra se apresentaria, e as duas se uniriam para uma grande jam session encerrando a noite.

Um “ensaio aberto” foi feito em Governador Valadares, cidade mineira, ainda em 1991. E em 18 de janeiro de 1992, no estádio do Pacaembu, em São Paulo, os Paralamas abriram para os Titãs no Hollywood Rock (curiosidade: nessa noite, Nando Reis cantou e tocou baixo forçosamente sentado, pois rompera os ligamentos do joelho jogando futebol). Uma semana depois, na Praça da Apoteose, o Rio de Janeiro viu a ordem inversa no HR: Titãs primeiro, Paralamas depois. O que não mudou foi o grand finale: as duas bandas tocando “Diversão”, “Pólvora”, “Comida” (com Herbert ajudando Arnaldo nos vocais – Arnaldo deixaria os Titãs no fim daquele 1992), “O beco” (com Paulo Miklos cantando), “Selvagem” e, enfim, “Marvin”, com Nando e Herbert dividindo as vozes.

O vídeo da apresentação conjunta dos “Titãs do Sucesso” (assim o Jornal do Brasil batizou o supergrupo, na resenha do show carioca) na Sapucaí está aí abaixo. Estava iniciada uma experiência marcante.

 

7) Como os Paralamas “ajudaram” os Titãs no Acústico MTV

Sexta-feira, 18 de outubro de 1996. São Paulo. Na hoje desativada casa de shows Olympia, os Paralamas faziam o primeiro dos três shows que teriam ali, estreando o espetáculo baseado no recém-lançado 9 Luas – que já tinha “Lourinha Bombril” estourada nas rádios, com outros sucessos em potencial, como “La bella luna”. Três membros dos Titãs prestigiavam a apresentação dos amigos: Tony Bellotto, Paulo Miklos e Charles Gavin. A certa altura, Herbert comenta com a plateia que todos da banda estavam exultantes com aquele sucesso, e anuncia que os PdS prometiam um trabalho acústico para dali a alguns meses. Havia um set acústico na turnê de 9 Luas, e não demoraria muito para que começassem os lendários “shows surpresa” que “prepararam” o trio e os músicos de apoio para o Acústico MTV dos Paralamas.

Naquela hora, imediatamente Miklos, Bellotto e Gavin deixaram o Olympia, furiosos. Não com Herbert nem com os Paralamas, mas com a MTV. Explica-se: os Titãs começaram 1996 já com a proposta do especial desplugado para a emissora. Só que a WEA, gravadora onde estavam, não abria mão de ter divulgação maciça do Acústico MTV nas revistas da Grupo Abril, também dono da MTV brasileira. Só que o Grupo Abril já não tinha mais 100% das ações da MTV – logo, não poderia fazer essa ação de divulgação como permuta. Ainda assim, a WEA não queria nem saber. Resultado: impasse.

Pior: as retaliações já tinham começado. Os Titãs decidiram oferecer o projeto do acústico deles ao SBT e ao antigo programa Som Brasil, da TV Globo. A MTV, então, reagiu: fez a proposta aos Paralamas, para que fossem eles os protagonistas do Acústico MTV. Os três titãs supracitados souberam disso somente quando Herbert falou, no show citado. Chisparam fora do Olympia, e viajaram no dia seguinte para Florianópolis, onde os Titãs tinham um show marcado. Marcaram um almoço na capital catarinense para acelerar as tratativas. E Charles Gavin lamentou: “Vamos perder o Acústico para os Paralamas. Um projeto que estava nas nossas mãos!”. Mas o guitarrista Marcelo Fromer (o membro dos Titãs mais afeito a negociações e burocracias) deixou de lamúrias e foi imperioso: “Ah, mas não vamos perder mesmo!”. Ligou para o português Paulo Junqueiro, diretor artístico da WEA, e falou que ele tinha de defender mais o lado da banda e marcar urgentemente uma reunião com a MTV.

Reunião marcada para a semana seguinte, WEA e MTV enfim se acertaram, e o Acústico MTV de 1997 ficou com os Titãs. E como Herbert comentou no making-of do Acústico MTV paralâmico (lançado em 1999), o lançamento “arrombou”. O destino transformou os Titãs num dos grandes sucessos radiofônicos/mercadológicos do Brasil em 1997: 1,8 milhão de cópias vendidas daquele álbum, e vários hits desplugados tomando as rádios naquele ano – “Pra dizer adeus” e “Os cegos do castelo”, citando só dois. E tudo porque Herbert citou a proposta da MTV no palco do Olympia, “ajudando” os Titãs…

8)  Sempre Livre Mix

Como já dito, o Acústico MTV iniciou a fase de maior sucesso comercial dos Titãs – sucesso prosseguido com Volume Dois (1998). Juntamente à trajetória regular dos Paralamas (que também haviam mantido o relativo êxito de crítica e público, com Hey Na Na), as duas bandas mantinham os nomes em alta no fim da década de 1990. Ao mesmo tempo, seguia a lembrança das apresentações antológicas no Hollywood Rock de 1992. Não demorou muito e veio a ideia: por que não repetir a dose?

Rapidamente os empresários das duas bandas chegaram a um acordo (José Fortes, ainda e sempre com os Paralamas; representando os Titãs desta vez, Manoel Poladian). E patrocinados pela Johnson & Johnson, Paralamas e Titãs foram a primeira dupla unida no projeto Sempre Livre Mix. Durante o ano de 1999, pelo menos duas vezes por mês, os amigos se uniam para shows pelo Brasil, no mesmo esquema do Hollywood Rock: cada banda tocava por 40 minutos – embora estivessem promovendo o Acústico MTV, os Paralamas faziam o show “elétrico” -, e ambas se uniam no final para tocarem sete músicas: “O beco”, “Ska”, “Pólvora”, “Selvagem”, “Diversão”, “Comida” e “Lugar nenhum”.

A maratona foi iniciada em São Paulo, em 13 de abril de 1999. E passou por Aracaju, Brasília, Campinas, Goiânia, novamente São Paulo… até terminar, em 20 de novembro, com um show no Metropolitan, casa de shows no Rio recentemente reativada. E essa apresentação carioca foi gravada e disponibilizada num CD, entregue de brinde a quem comprasse o absorvente íntimo feminino que dava nome ao projeto que uniu os Paralamas aos Titãs pela segunda vez.

 

9) A lembrança carinhosa

2001 trouxe dois momentos dolorosos na lembrança dos dois grupos. Os Paralamas viveram momentos “de dor e esperança” – conforme nota divulgada em versão antiga do site -, após o acidente de Herbert. E os Titãs acompanharam proximamente o sofrimento: Tony Bellotto, Branco Mello, Charles Gavin e Nando Reis visitaram algumas vezes o Copa D’Or, hospital carioca onde Herbert ficou internado.

Mas mesmo em meio à dor pela perda de um de seus guitarristas, os Titãs não esqueceram dos amigos que também precisavam de ajuda. E a lembrança carinhosa está registrada no encarte de A melhor banda de todos os tempos da última semana, lançado ainda em 2001. Nos agradecimentos, uma frase singela e comovente dos Titãs está lá: “Um grande abraço para a família Paralamas”.

10) 25 anos de rock

O tempo passou, mas as relações próximas continuaram. Como citado no início destes momentos, Uns dias – Ao vivo trouxe participações tanto de Paulo Miklos quanto de Nando Reis (que deixara os Titãs em 2002). Já como artista solo, Nando ainda cedeu “Pétalas”, para o repertório de Hoje, disco lançado pelos Paralamas em 2005. Porém, já se passara certo tempo desde o Sempre Livre Mix. E a vontade de juntar os três cariocas aos (então) cinco paulistas crescia novamente.

E em 2007, bastou uma reunião casual entre as duas bandas num hotel de Porto Alegre (ambas estavam na capital gaúcha para shows próprios), e nascia a ideia do projeto 25 anos de rock, lembrando a “idade” de ambas. Mais alguns meses se passaram, e enfim foi fechado o acordo para mais uma turnê. Em seu blog, na época, Sérgio Britto lembrou uma frase de José Fortes: “Tá legal. Só tem uma coisa: se a gente for fazer, temos a obrigação de fazer direito!”. Fizeram. Agora, com propósito invertido: na maioria do tempo, as duas bandas ficavam juntas em cima do palco, e tinham apenas um pequeno espaço para sets individuais. E uma participava mais do repertório da outra: o show abria com Herbert Vianna cantando “Diversão”, depois Paulo Miklos seguia com “O Calibre” e assim ia.

 

E a turnê 25 anos de rock ainda contou com vários convidados nas capitais por onde passou naquele 2007. Em Porto Alegre, Fito Paez surgiu da Argentina; em Salvador, Carlinhos Brown esteve no show; em Belo Horizonte, Dado Villa-Lobos figurou no palco. Fora os convidados frequentes: vez por outra, deram canja em vários shows daquela turnê Marcelo Camelo, Arnaldo Antunes e Andreas Kisser. Finalmente, em janeiro de 2008, a apresentação no Rio de Janeiro, na Marina da Glória, foi gravada (contando com Andreas, Arnaldo e um convidado inédito: Samuel Rosa). E virou o combo CD/DVD Paralamas e Titãs juntos & ao vivo, lançado naquele ano.

E embora ela tenha desacelerado após a gravação de 2008, essa turnê não teve um fim “declarado”. Tanto que, muito esporadicamente, Paralamas e Titãs ainda tocam juntos por aí. Basta lembrar o show que abriu o Rock in Rio de 2011 (já sem Charles Gavin, que se afastou dos Titãs em 2010), com a Orquestra Sinfônica Brasileira – e Maria Gadú participando em “Lourinha Bombril”. E o show deste sábado, em Brasília, é mais um capítulo da “turnê” das “nêmesis” Paralamas e Titãs. Concorrentes, sim; amigos, mais ainda.

Participação especial: Herbert Vianna [2]

Depois da primeira parte da série, hora de colocarmos mais dinamismo nas colaborações de Herbert, através de uma ordem cronológica. Ainda em 1984, Herbert cedeu duas canções a Brega-chique, chique-brega, disco de Eduardo Dussek: “O crápula” e “O bilhetinho (Recebi seu bilhetinho)” – esta última até fazia parte do repertório dos shows dos Paralamas na época. Em 1985, assim como ocorreu com João Barone (o texto dele já está aqui no site), o talento daquele cantor/compositor/guitarrista não passaria em branco para dois olhares sempre atentos: os de Rita Lee e Gilberto Gil. Assim como Barone, Herbert participou de Rita & Roberto, disco lançado por ela: fez os vocais de apoio e a guitarra em “Glória F”. E gravou a guitarra de “O seu olhar”, faixa de Dia dorim Noite neon, álbum de Gil.

Mas 1985 era um ano de eclosão e efervescência naquela geração que tomava de assalto a música brasileira. E um dos grandes protagonistas da eclosão era o Ultraje a Rigor. Dando canjas num show aqui e outro ali, Herbert logo se aproximou de Roger Moreira. Deixou claro o gosto pelo grupo paulistano, com a versão de “Inútil” nos shows do Rock in Rio. E finalmente, Herbert foi convidado a participar das gravações do antológico Nós vamos invadir sua praia, o disco de estreia do Ultraje. Portanto, saiba: aquela guitarra solo irresistível que soa na versão original de “Marylou” é de HV.

No mesmo 85, Herbert ainda achou tempo para colaborar com Leo Jaime. Em Sessão da tarde, álbum que Leo lançou naquele ano – por sinal, outro megassucesso daquela geração -, um dos grandes hits foi a música que abria o trabalho: “O pobre” (“Ela não gosta de mim/Mas é porque eu sou pobre…”), parceria do cantor/compositor com Herbert. Os Paralamas até participaram completos numa outra faixa de Sessão da tarde, mas aí é outra história…

1986 chegou, mas Leo Jaime continuou recebendo as colaborações do colega de geração. Vida difícil, seu álbum naquele ano, foi gravado numa das salas do estúdio Nas Nuvens – em outra sala, ao mesmo tempo, os Paralamas gravaram Selvagem?. Bastou para mais trabalhos: além de Barone, Herbert também esteve em Vida difícil. Fez o solo de guitarra em “Briga”, e gravou guitarras ainda em “Prisioneiro do futuro” e na versão que Leo fez para uma canção já conhecida então: “Mensagem de amor”.

Outra releitura de uma obra de Herbert que também é esporadicamente lembrada é a da cantora e compositora Dulce Quental para “Caleidoscópio”. Inédita na época – o registro dos Paralamas, que sacramentou o sucesso da canção, veio só no primeiro Arquivo, em 1990 -, “Caleidoscópio” fez parte de “Voz azul”, primeiro disco solo de Dulce, lançado em 1987. Por sinal, “Voz azul” era mais uma produção de Herbert, junto do guitarrista e violonista Celso Fonseca e do produtor Mayrton Bahia. Não é de se estranhar que “Caleidoscópio” tenha sido registrada primeiro por Dulce; afinal, o Sempre Livre, banda da qual ela era a vocalista, gravou “Fui eu” em Avião de combate (1984), seu disco de estreia, quase simultaneamente à gravação dos Paralamas para “Fui eu” que está em O passo do Lui

Em 1989, Herbert elevaria ainda mais sua produção para outros artistas. Até em termos internacionais: naquele ano, David Byrne lançou Rei Momo, seu segundo disco solo (primeiro após o fim do Talking Heads), muito influenciado pela música brasileira e pelos sons afrocaribenhos. E Herbert participou do álbum, com os vocais e a guitarra de “Office Cowboy”.

Outra incursão que superou os limites geográficos foi trabalhar com a banda argentina de reggae Los Pericos: naquele 1989, eles escolheram Herbert para produzir o segundo trabalho, King Kong. Nascia uma amizade que segue até hoje e rendeu frutos até aos Paralamas: em Pampas reggae, disco de 1994, os Pericos lançaram “Párate y mira”. Que, na versão em português de Herbert, virou… isso mesmo, “Lourinha Bombril”, um dos grandes sucessos dos Paralamas, lançado dois anos depois.

Mais de 1989? Herbert produziu “Império dos sentidos”, o segundo álbum de Fausto Fawcett. Por sinal, Fausto era (e é) parceiro de uma das cantoras que mais ficariam próximas de Herbert ao longo da carreira. Mas isso já foi nos anos 1990…

Fernanda Abreu

Tão logo a Blitz acabou em sua primeira fase (1982-1986), na qual foi o estopim para o estouro da geração que “deu uma Blitz na MPB” – palavras de Gilberto Gil -, Fernanda Abreu voltou para seu habitat natural, a dança. Mas o bichinho da música já tinha picado de vez a ex-estudante de Sociologia da PUC carioca. E em 1989, Fernanda já começou a caraminholar sua volta aos estúdios. Demorou um pouco: não queria voltar apenas para aproveitar a fama do grupo em que começara. Mas quando foi formatando o que desejava fazer musicalmente, teve em Herbert Vianna um parceiro de primeira hora.

Isso foi provado já em 1990. SLA Radical Dance Disco Club, álbum da estreia solo de Fernanda – o SLA vem de Sampaio de Lacerda Abreu, seus sobrenomes -, teve Herbert altamente ativo. Ele produziu o disco, junto de Fernanda e do tecladista Fábio Fonseca (colega de João Barone na produção de outro álbum, a estreia de Ed Motta, em 1988). E Herbert ainda programou a bateria e tocou guitarra em várias das canções do álbum: na faixa-título, em “Kamikazes do amor”, em “Speed Racer” – parceria dos três produtores do trabalho, que Herbert gravou em Santorini Blues – e em um dos grandes sucessos do disco, “A noite”. No outro hit que saiu dali, “Você pra mim”, Herbert programou a bateria e tocou teclados. Ainda programou a percussão eletrônica de “Venus Cat People”, e participou da composição de “Disco club 2 (Melô da radical)”.

Demorou um pouco para os dois amigos voltarem a trabalhar juntos. Mas quando voltaram, rendeu outro sucesso a Fernanda: em Da Lata, disco que lançou em 1995, um dos grandes hits foi “Veneno da lata”, canção que dialogava com “Vamo batê lata” já no título. E no refrão (“Batuque-samba-funk, é veneno da lata (Vamo batê lata!)”). E ainda rememorava o primeiro álbum solo de Herbert, citando o empresário dela e o dos Paralamas também (“Tem que falar com o Jê [Jeronymo Machado]/Tem que falar com o Zé [claro, Zé Fortes]/Ê batumaré”). No arranjo, uma citação a “Qualquer palavra serve”, canção tirada de Ê Batumaré. Completando as várias menções, no meio da canção, a voz de Herbert cita novamente sua própria obra: “Quatro sete sete cinco meia/No batuque samba-funk da alegria arrastão/Ouviu dizer, ouviu falar, não sabe bem, deixa pra lá/O batuque samba-funk é o veneno”. E ele ainda apareceu no clipe de “Veneno da lata”. Finalmente, a parceria foi reproduzida ao vivo, na cerimônia de entrega do Video Music Brasil, da MTV, em 1996.

Outro grande momento de colaboração entre Herbert e Fernanda foi em 1997. Lançado naquele ano, Raio X, álbum em que ela revisitava seus sucessos ao lado de convidados, ainda trazia inéditas. Uma delas, “Um Amor, Um Lugar”, foi presente de Herbert, que ainda participou da gravação original cantando, arranjando, tocando guitarra, violão e viola de 12 cordas. E tornou-se mais um hit. Agradou tanto que os próprios Paralamas fizeram a versão no Acústico lançado em 1999 pela MTV Brasil. E consolidou a parceria a ponto de ter merecido nova versão da própria Fernanda, com Herbert de convidado na guitarra e no vocal, em 2006, no álbum ao vivo gravado por ela e lançado naquele ano pela MTV. Mesmo depois das grandes reviravoltas entre um momento e outro, continuava valendo o que Fernanda escrevera no material de lançamento de Raio X, referindo-se a “Um amor, um lugar”: “Herbert, um beijo. Grande artista e grande amigo”.

Anos 1990

Ainda antes da década começar, entre os vários trabalhos que Herbert produzia, poderia ter estado na lista O eterno deus Mu dança, álbum que Gilberto Gil lançou em 1989. Estava tudo certo, mas algumas discordâncias artísticas impediram que HV produzisse aquele novo trabalho de seu amigo/mentor Gil. Mágoas? Jamais: em Parabolicamará, disco que Gil apresentou no início de 1992, Herbert estava lá na ficha técnica. Foram dele as guitarras de “Madalena (entra em beco, sai em beco)”, uma das canções mais conhecidas de Parabolicamará.

Mas uma participação pitoresca de Herbert ocorreu em 1990 (tecnicamente, ainda é década de 1980, mas você entende, leitor). Naquele ano, Gonzaguinha lançou seu último trabalho em vida, Luizinho de Gonzaga, no qual fazia várias releituras das obras do pai que perdera no ano anterior. E para cantar o clássico maior de Gonzagão, “Asa branca”, Luiz Gonzaga Jr. colocou no estúdio o que chamou de “coral dos amigos”: um grupo que unia de Erasmo Carlos a Alcione, passando por Xuxa Meneghel. Cada amigo cantaria um verso de “Asa branca”. E Herbert foi um desses “amigos” de Gonzaguinha em seu derradeiro trabalho, participando daquela versão – para constar, o verso que ele cantou foi o “quando o verde dos teus olhos”.

Ao longo daquela década, houve mais canções que Herbert deu a outros parceiros e que não ficaram muito conhecidas do grande público – mesmo que os Paralamas, ou até Herbert sozinho, as tenham gravado posteriormente. Em 1994, o primeiro álbum solo de Toni Platão trazia “Qualquer garantia”; em 1996, o músico mineiro Eduardo Toledo registrou “Mulher sem nome”, composição de Herbert, que o trazia na guitarra da gravação original – e que foi registrada por ele em Victoria; 1997 teve Paulo Ricardo lançando O amor me escolheu, álbum solo dele, com “Amor em vão”, que depois recebeu versão dos Paralamas em Longo Caminho. E finalmente, em 1999, a banda carioca Negril (cujos baixista, Tácio Farias, e baterista, Cosme Tchê, tocaram com Herbert em O som do sim) fez a versão original de “Pense bem”, no álbum A outra margem do rio. “Pense bem” foi mais uma canção de Herbert que o próprio apresentou em Victoria.

Mas não era só através de suas canções que Herbert aparecia no trabalho de outras pessoas. Já comentado desde que lançou Aos vivos (1994), álbum ao vivo, Chico César viu o nosso conhecido guitarrista/cantor participar de Cuscuz clã (1996), seu segundo trabalho: Herbert registrou as guitarras em “Dá licença M’”. E 1997 trouxe uma participação daquelas para constar no currículo. No seu Acústico MTV, Gal Costa contou ao público que já sonhava há muito tempo em gravar algo de Herbert, inédito ou conhecido, mas nunca conseguia tê-lo junto. Daquela vez, conseguiu: ele esteve com Gal, cantando e tocando o violão de aço na releitura de “Lanterna dos afogados”, que fez algum sucesso e até hoje é lembrada às vezes. Antes de cantar, a marcante aparição foi celebrada com uma autogozação do próprio: “Que honra, o pior cantor do mundo com a maior cantora…”.

Mas as colaborações de Herbert ao longo daquela década de 1990 tiveram até mais curiosidades. Confira no próximo – e último – capítulo da série!

Abrindo a Caixa: Raridades

O segundo CD inédito da Caixa Paralamas é uma compilação muito bacana de músicas gravadas pelos Paralamas que não fazem parte dos CDs de estúdio, como as participações nos CDs de amigos – “Them Belly Full” (Gilberto Gil – Kaya n’Gandaya), “Envelheço na Cidade” (Acústico MTV do Ira!) e “4 do 5” (Lulu Santos – Programa)

Você vai encontrar também versões gravadas para o songbook do Djavan (“Açaí”) e do Gilberto Gil (“Refazenda”), o CD em homenagem a Jackson do Pandeiro (“Um a Um”), duas versões do Jorge Ben Jor (“País Tropical” e “Que maravilha”) e a poderosa versão ao vivo de “Mustang Cor de Sangue” gravada no “Baile do Simonal”, exibido pela Rede Globo em 2009.

E não para por aí! Tem as versões das coletâneas “Arquivo” (“Vital e Sua Moto – Versão 90”, “Caleidoscópio” e “Aonde quer eu Vá”), a música “O Palhaço” que não entrou no CD Brasil Afora (foi disponibilizada apenas em formato digital) e a trilha sonora do filme “A Taça do Mundo é Nossa” – “É Papo Firme”.

Pra finalizar, parcerias com a Legião Urbana (“Ainda é Cedo”) e B Negão (“Atirei no Mar II”).

Natal e Salvador

Duas capitais muito queridas dos Paralamas proporcionaram recentemente reencontros daqueles que fazem pensar em quanta estrada já não se rodou nessa vida. O primeiro foi no Teatro Riachuelo, em Natal, um dos melhores lugares pra se tocar no país. O outro foi nesse fim-de-semana, na Concha Acústica Castro Alves, palco de shows históricos principalmente ao longo da década de 80, e de encontros incríveis com Gil, Olodum e Carlinhos Brown.

Nas duas cidades, amigos da banda mandaram uma colaboração para o site com um olhar particular sobre o show. Em Natal, em forma de foto. E em Salvador, nesse textinho aí abaixo.

À véspera da decisão política mais importante da nossa cidade, que ocorreu nesse domingo, o tripé do Rock Brasileiro realizou um show antológico na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Com o ânimo de quem está tocando pela primeira vez e a segurança de quem está fazendo o último show da carreira, a trupe comandada por Herbert Vianna não deixou em momento nenhum a energia baixar e fez o público que lotou a Concha cantar do início ao fim da aproximadamente uma hora e meia de apresentação. Foi espetacular.

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