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Lembranças cariocas

Os Paralamas no Cristo Redentor, durante as sessões de foto para encarte e divulgação de O Passo do Lui, em 1984 (Foto: Mauricio Valladares)

 

Estar em casa quase sempre é das melhores sensações imagináveis. E se a vontade de um dia viver de música germinou em Brasília, ela floresceu definitivamente para os Paralamas do Sucesso no Rio de Janeiro, onde cada um dos três fixou sua vida (sem contar o fato de Bi e Barone serem cariocas de nascimento, claro). Portanto, a capital fluminense é a casa dos Paralamas. E é lá que a turnê de Sinais do Sim estará, no próximo sábado, 28 de outubro, no Vivo Rio. Nada mais justo que este site faça uma seleção de cinco momentos, entre os tantos que a banda viveu em sua casa. (SPOILER: foi tão difícil, que ao invés dos cinco habituais, entraram seis na lista…)

 

1)      Os primeiros shows oficiais

Na verdade, este site já comentou vários e vários momentos dos Paralamas no Rio de Janeiro. Os ensaios na casa da Vovó Ondina, as várias passagens pelo Circo Voador, a óbvia lembrança das apresentações no primeiro Rock in Rio, em 1985… mas houve dois shows marcantes, nos primórdios, quando a banda ainda engatinhava. Este(s) marco(s) tiveram data: 30 de novembro e 1º de dezembro de 1982. São considerados os primeiros shows oficiais da formação consolidada em Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone (embora já tivessem havido apresentações em 9 de setembro e 21 de outubro de 1982).

Os Paralamas fizeram os dois shows no Western Club, localizado no bairro do Humaitá, dos raros bares da época que já abriam espaço para a nascente geração de bandas de rock. Numa nota em que eram anunciados os shows pela cidade naquelas noites, o Jornal do Brasil de 30 de novembro noticiava: “Terça e quarta, no animado Western, às 21h30, estreia do jovem grupo de new wave intitulado Paralamas do Sucesso. Meio estranho o título, buzina não seria melhor?”. No repertório, um tanto de covers (The Who, Bob Marley, Police), outro tanto de canções gozadoras da pré-história da banda (“Pinguins”, “Rodei de novo”, “Vital e sua moto”, “Vovó Ondina é gente fina”, “Cínica” – nesta última, parceria obscuríssima com os amigos do Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, surpresa: Bi Ribeiro cantava, com a alcunha de “Cauby Ribeiro”).

Na bilheteria, conta-se que estiveram coletando o dinheiro dos espectadores o antropólogo Hermano Vianna, irmão de Herbert, e o hoje jornalista Tom Leão. Final feliz: deu certo, a casa lotou nas duas noites, e o dinheiro daqueles shows no Western ajudou a pagar o aluguel do estúdio Retoque, em Botafogo, para os Paralamas gravarem a primeira fita demo da banda.

 

2)      Um grande momento nos anos 1980

É muito difícil mencionar um só momento dos Paralamas no Rio de Janeiro, ao longo dos anos 1980 e 1990. Foram incontáveis shows, em incontáveis lugares da capital. Os Paralamas passaram por danceterias (a citada Western, Mamute, Mamão com Açúcar, Metrópolis, Kristal – merece destaque a Noites Cariocas, coordenada por Nelson Motta e montada no alto do Morro da Urca). Passaram por casas de show – de tamanho pequeno (Hipódromo Up e Rock in Rio Café) ou médio (Canecão, Metropolitan e Olimpo). Passaram pelo Circo Voador, espaço que merece menção por si só. Passaram pelo Maracanãzinho, no festival Alternativa Nativa, em 17 de julho de 1988.

E fizeram vários shows em lugares abertos, para grandes públicos. Alguns deles, em shows gratuitos (como o organizado pela 98 FM na época de Selvagem?, na foto de Alberto Dutra que está no alto deste tópico). Outros, em festivais – para nem citar as três passagens pelo Rock in Rio, vale lembrar as apresentações nas edições de 1988 e 1992 do Hollywood Rock, ambas na Praça da Apoteose. E finalmente, a apresentação lembrada aí embaixo: em 25 de janeiro de 1987, no Estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas – e gravada para exibição no programa “Rock Expresso”, da extinta TV Manchete.

 

3)      A chuva forçou mudanças na gravação do Acústico

Os fãs mais atentos sabem: o Acústico dos Paralamas foi gravado para a MTV brasileira no Rio de Janeiro, em um fim de semana. Tudo ocorreu em 5 e 6 de junho de 1999, no Parque Henrique Lage – para os íntimos, o Parque Lage, no Jardim Botânico carioca. Ninguém viu o cenário deslumbrante durante a gravação das apresentações – uma lona cobria o pátio da mansão.

Poderiam ter visto. Na época, Herbert Vianna revelou ao jornalista Jamari França: “Cogitamos de não colocar a lona para ter o Cristo [Redentor] ao fundo”. Mas o risco de chuva se concretizou naquele fim de semana no Rio (além de chuvoso, o clima estava frio), inviabilizou tais planos e forçou o uso da lona. Herbert ainda fez piada: “É só a SUDENE contratar nossa turnê. Sempre que a gente toca ao vivo, é assim…”.

 

4)      Um improviso prova a volta definitiva

Já se sabia que Herbert Vianna estava recuperado e fazendo música, após o acidente que forçou a interrupção do caminho dos Paralamas. Ela até havia subido duas vezes ao palco em 2002: em 16 de junho, para cantar “Trac Trac” com Fito Paez, num show do argentino no Canecão, e em 9 de julho, no Ballroom, boate carioca, participando de uma apresentação do Reggae B, o projeto paralelo de Bi Ribeiro – que ajudou a manter a equipe paralâmica unida, com participações de João Fera e Bidu Cordeiro, sem contar as várias canjas que eram dadas.

Veio o dia 30 de julho de 2002. Mais uma noite de Reggae B no Ballroom. Na bateria, um convidado especial: João Barone. No baixo, Bi Ribeiro. A apresentação seguia agradável, com as participações de Nando Reis e George Israel – sem contar os vocalistas originais do Reggae B, Valnei Ainê (do Negril, banda carioca de reggae) e Gustavo Black Alien. Mas havia uma presença especialíssima no Ballroom. E ela foi anunciada ao palco por Black Alien: “Herbert Vianna”.

De improviso, Herbert, Bi e Barone estavam juntos para tocar, oficialmente pela primeira vez desde dezembro de 2000. E sobre o palco do Ballroom, tocaram “A novidade”; versões de duas músicas do UB40, “All I want” e “Cherry oh baby”; “Meu erro”; e apresentaram ao mundo “O calibre”, precedida por Herbert: “Vamos tocar uma coisa nova dedicada a um passado recente. A cabeça do malandro aqui voltou a ter um mínimo operacional”. Depois, houve o show fechado para amigos, na gravadora EMI, em 9 de setembro de 2002. O show fechado para fãs, no Projac da TV Globo, em outubro. E a abertura da turnê de Longo Caminho, em João Pessoa, no dia 6 de novembro. Mas foi no Rio de Janeiro, naquele 30 de julho no Ballroom, que se provou: os Paralamas do Sucesso estavam de volta. Quem viu, não esquece.

Bi, Herbert e Barone (ao fundo) em 30 de julho de 2002, no Ballroom, boate carioca, na canja que marcou a volta dos Paralamas (Foto: Leonardo Aversa)

 

5)      Enfim, na Fundição Progresso (num show aberto…)

Como já se comentou aqui, há pouquíssimos lugares conhecidos para shows no Rio de Janeiro que não tiveram a presença dos Paralamas do Sucesso. Todavia, em 2003 havia um: a Fundição Progresso. Bem, também não era tão inédito assim, conforme Bi Ribeiro revelou no making of do DVD para Uns dias Ao vivo: “A gente nunca tocou na Fundição. Bem, tocou uma vez – em 1989, no lançamento do disco Big Bang. Aí, fizemos um evento. Mas era com a gravadora…”. Herbert Vianna acrescentou: “Festa fechada”.

Faltava um show aberto. Mas não faltou mais a partir de 24 e 25 de outubro de 2003, quando os Paralamas enfim se apresentaram à vera na Fundição, com a turnê de Longo Caminho. E hoje, já dá para dizer que o espaço no bairro da Lapa virou íntimo da banda. Até porque a estreia carioca da turnê dos 30 anos foi lá. E em um grande dia: 4 de maio de 2013, aniversário de 52 anos de Herbert Vianna – celebrado com um “Parabéns a você” cantado pelas milhares de vozes que estavam lá, e estendido pelo próprio Herbert a outro aniversariante ilustre do dia, Lulu Santos.

Os Paralamas agradecem o público, após o show da turnê de 30 anos, na Fundição Progresso, em 4 de maio de 2013 (Foto: Fabrício Montezuma)

 

6)      Mais gravações

Até a década de 2000, fora o Acústico e festivais (ambos exibidos pela tevê), nunca os Paralamas haviam gravado um trabalho ao vivo no Rio de Janeiro. Pois bem: a lacuna começou a ser devidamente preenchida. Primeiro, nem foi um trabalho com público, é verdade. Mas o DVD de Hoje foi gravado ao vivo, com todos os convidados do disco – Andreas Kisser, Nando Reis, o DJ Marcelinho da Lua -, no estúdio Humberto Mauro, no Pólo de Cinema e Vídeo do Rio de Janeiro, em 19 e 20 de dezembro de 2005.

Mas a turnê 25 anos de rock, com os Titãs, representou a oportunidade para gravar um trabalho como se deve, com público e tudo. E isso foi feito no Rio: mais precisamente, na Marina da Glória, em 26 de janeiro de 2008. No ano seguinte, veio Brasil Afora. E veio o registro da turnê, também no Rio de Janeiro: Multishow ao vivo – Brasil Afora, gravado em 14 de dezembro de 2010, no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico. E na hora de gravar a turnê comemorativa dos 30 anos, qual foi o local escolhido? O Citibank Hall carioca, na apresentação de 26 de outubro de 2013, também exibida ao vivo pelo Multishow.

Neste sábado, não será gravação. Mas o show da turnê de Sinais do sim representa mais um reencontro dos Paralamas com a sua casa. E como todo reencontro pede festa, não terá a mesma graça se não estiver lotado. Esperamos os cariocas!

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