A história dos Paralamas através dos estúdios | Os Paralamas do Sucesso
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A história dos Paralamas através dos estúdios

 

No início de tudo, em 1982, qualquer estúdio servia para os Paralamas do Sucesso: para aqueles três garotos iniciantes, o sonho era gravar uma fita demo para conseguir tocar na Rádio Fluminense – e, a partir daí, fazer um show no Circo Voador. Com o dinheiro da bilheteria conseguida nos shows de 30 de novembro e 1º de dezembro de 1982, no Western Club (casa no bairro carioca do Humaitá), enfim a banda nascente conseguiu alugar horas num estúdio para gravar. Era o Retoque, de propriedade do percussionista Chico Batera, também localizado no Rio. O primeiro estúdio por que os Paralamas passavam na carreira. No Retoque, com uma simples mesa de oito canais, gravaram a fita demo, ainda no fim de 1982.

 

Na biografia Os Paralamas do Sucesso: Vamo batê lata, Herbert Vianna lembrou-se vagamente daquela primeira experiência de gravação ao jornalista Jamari França, citando o primeiro contato com Nelson, técnico de som que trabalhava no Retoque e foi o responsável pela gravação: “O Nelson perguntou: ‘Vocês vão gravar base primeiro?’. A gente olhou um pro outro, ninguém sabia o que era base, aí ele explicou [nota: base é o arranjo da música, que pode ser gravado com todos os músicos juntos ou separadamente, para só depois o vocal ser colocado]. Gravamos todo mundo tocando junto, só o solinho de guitarra era no playback, e a voz também”.

 

A fita demo ajudou a acelerar os caminhos, você sabe: os Paralamas conseguiram tocar na Rádio Fluminense e se apresentar no Circo Voador. O contrato final com a EMI-Odeon rendeu a eles o acesso quase imediato a outro ambiente, bem maior. Que seria a segunda casa da banda, por muitos anos. Até com endereço: rua Mena Barreto, 151, Botafogo, Rio de Janeiro. Ali ficava o complexo de estúdios que a EMI-Odeon mantinha no Brasil (até os anos 1990, era comum cada gravadora manter o seu próprio estúdio de gravação).

Os estúdios da EMI possibilitavam a convivência entre os artistas contratados da gravadora, invariavelmente gravando os álbuns pelos estúdios da Mena Barreto. Também havia o charme todo especial dos equipamentos analógicos – há uma “lenda urbana”, segundo a qual a mesa de som do estúdio 2 fora trazida diretamente de Abbey Road, e usada na mixagem do álbum homônimo dos Beatles. Não bastassem todas essas referências, os Paralamas ainda foram colocados frente a frente com experientes técnicos de som que trabalhavam na EMI. Como Amaro Moço, que tinha discos da família Caymmi (o pai Dorival, os irmãos Nana, Dori e Danilo) no currículo – e foi um dos técnicos de gravação de Cinema mudo. Ou Guilherme Reis (já falecido), que trabalhara com grandes nomes da música brasileira (Elis Regina, Ivan Lins, Djavan), e ficou responsável pela mixagem do disco de estreia dos Paralamas.

 

Responsável pela produção de Cinema mudo e O passo do Lui, Marcelo Sussekind já tinha longa história de serviços nos estúdios – e nos palcos da vida também, tocando guitarra. Sussekind foi só elogios ao comportamento dos novatos naqueles primeiros tempos de EMI, falando para o livro biográfico de Jamari França: “Os Paralamas são uma banda muito tranquila, não houve aquela coisa da luz vermelha [acesa, indicando que se está gravando], o cara vai gravar e treme na base”. Com a comodidade dos estúdios serem propriedade da gravadora, era possível ousar nas experiências técnicas. Uma delas ajudou muito no som de bateria em O passo do Lui: “Na época não existiam as facilidades eletrônicas de hoje e você tem um som de bateria ali que eu acho que até hoje ninguém atingiu. Eu e Franklin [Franklin Garrido, técnico de som da EMI] ficamos uma semana tirando aquele som de bateria, mexendo no teto da Odeon, porque o teto se mexia para alterar a acústica. Microfone em tudo quanto era lugar, tinha os microfones da bateria, [microfone] ambiente no chão, ambiente no teto, ambiente longe”.

 

Em texto feito para o livreto da lata Pólvora, lançada em 1997 com todos os discos remasterizados dos Paralamas, João Barone lembrou: “Essas gravações [nos estúdios da EMI] nos fazem lembrar da época em que cruzávamos nos corredores com a Blitz, Nana Caymmi, Egberto Gismonti, Legião, Plebe Rude e muitos outros amigos de então e sempre. (…) Eram máquinas pouco confiáveis, que quebravam a toda hora. Mas, no lado humano, havia um clima inigualável, comparado aos melhores dias na escola (lembra quando o professor faltava?). Tudo isso com o sabor de sanduíches de provolone que vinham do bar da esquina salvar a fome nas madrugadas…”. No mesmo texto, Barone lembrou-se de uma das práticas mais disseminadas para passar o tempo entre uma gravação e outra na Mena Barreto: as partidas de “vôlei de estúdio”, das quais a Legião Urbana também era praticante fervorosa. “A sala onde gravamos ótimos sons de bateria e cordas servia também como quadra de vôlei – marcada no carpete com fita crepe e com as tapadeiras acústicas [biombos para evitar vazamento de som] como rede, para desespero do pessoal da manutenção. Mas no final das sessões, estava até o presidente da gravadora na dupla de fora esperando para entrar!”.

 

Com os dois primeiros discos gravados na Mena Barreto, porém, uma tentação logo cresceu sobre os Paralamas. Tentação comum em muita gente nos anos 1980: gravar no Nas Nuvens. De fato, o estúdio do produtor Liminha, inaugurado em 1984 e localizado na rua Caio de Melo Franco (no Humaitá, também no Rio), era a última palavra em matéria de modernidade: mesas de som de 48 canais, instrumentos antigos… sem contar o clima, tão bom quanto o dos estúdios da EMI. Pois bem: foi justamente valendo-se da tecnologia de ponta do Nas Nuvens que os Paralamas gravaram Selvagem?, tendo como técnico de gravação Vitor Farias (já então e até hoje, fiel escudeiro de Liminha nas produções do estúdio).

 

No texto da lata Pólvora, Barone reconheceu: “Gravar no Nas Nuvens foi como brincar no melhor Autorama já montado no Rio de Janeiro”. Adiante, o baterista lembrou o grau de complexidade da mixagem, feita pelos três, junto de Liminha e Vitor Farias: “Eu e Bi levamos ao extremo as ‘capacidades jamaicanas’ do estúdio, assim como a paciência de todos que estavam trabalhando. Éramos os ‘ciscadores’ e o Bi, em especial, desenvolveu um talento incomum nos comandos de ecos digitais e caixas Leslie, o Rei do Dub!”. Talento desenvolvido na marra: Bi lembrou que durante a mixagem, para os efeitos dub das músicas do álbum, precisava apertar botões e pedais no momento exato da música, já que nenhum recurso de correção posterior existia.

 

Se os três primeiros discos de estúdio haviam deixado memórias saborosas, Bora Bora rendeu sérias dificuldades na mixagem: após a gravação de D em Montreux, mais uma experiência internacional dos Paralamas, no Townhouse Studios, em Londres, em março de 1988, junto de Renato Luiz, o técnico que mixou o álbum. Produtor do álbum junto da própria banda, o técnico de som Carlos Savalla lembrou do azar e do trabalho árduo: as fitas de 24 canais usadas na gravação do quinto disco, produzidas pela empresa alemã Agfa, vieram de um lote defeituoso e estavam apodrecidas, trazendo o risco de perder todo o trabalho já gravado.

 

Daí veio a lembrança de Savalla: “As fitas soltavam óxido e a gente só percebeu isso depois que passamos a manuseá-las. Tem músicas cuja mixagem fizemos rezando de joelhos para acabar. ‘Uns dias’ é um exemplo disso. As fitas do Bora Bora não existem mais, só existe esse material que está aí”.

 

A lição foi aprendida, como indicaram os trabalhos posteriores. Ainda gravado nos estúdios EMI, Big Bang foi mixado por Renato Luiz, Beto Pimentel, Carlos Savalla e os três Paralamas nos estúdios Impressão Digital, no Rio, recém-abertos pelo produtor Marco Mazzola. Processo ainda mais luxuoso foi feito em Os Grãos: os Paralamas, junto de Liminha e Carlos Savalla (produtores do álbum), mixaram o álbum no estúdio Music Grinder, em Los Angeles, junto do técnico de som Brad Gilderman, que tinha no currículo álbuns de Prince e Janet Jackson. Já a gravação marcou o fim de uma época: com os custos aumentando, a EMI desativou os estúdios da Mena Barreto no início dos anos 1990, e Os Grãos foi o último trabalho gravado lá (com Franklin Garrido, Savalla e Liminha como técnicos). Ainda assim, o espaço continuou fazendo parte da história dos Paralamas – rebatizado Espaço Odeon, ali a banda fez os ensaios gerais antes de gravar o Acústico, em 1999.

 

Para Severino, os Paralamas ousaram ainda mais. Após Phil Manzanera, do Roxy Music, se interessar em produzir o álbum, Herbert, Bi, Barone, José Fortes, o produtor Chico Neves e o percussionista Eduardo Lyra foram gravar e mixar o álbum na Inglaterra, no Gallery Studios, propriedade de Manzanera na cidade de Chertsey, onde trabalharam entre dezembro de 1993 e fevereiro de 1994. Alguns problemas técnicos retardaram o lançamento, como Bi Ribeiro comentou: “O Chico Neves levou prontas algumas coisas programadas de percussão, era só dar um jeito de fazer o computador funcionar e gravar. Só que o sistema que eles tinham lá era Atari, eu acho, e o nosso era Macintosh, um negócio assim, aí deu incompatibilidade. (…) Normalmente, eu e João gravamos todas as bases em dois dias, mas acho que nesse disco a gente quis fazer música por música. (…) A gente ficou fora muito tempo e não resolvia, foi meio agonizante”.

 

Posteriormente, os discos de estúdio dos Paralamas tiveram trabalhos mais rápidos. Em duas semanas de 1996, 9 Luas foi gravado no Impressão Digital, e em um mês a mixagem foi feita por Brad Gilderman no estúdio The Enterprise, em Los Angeles. Para Hey Na Na, mais um avanço tecnológico foi feito: trabalhando com Chico Neves em seu estúdio (o 302, no Rio de Janeiro), a banda enfim conheceu o Pro Tools, programa que permitia editar gravações no computador – do qual Chico foi pioneiro no Brasil. E a mixagem rendeu mais uma viagem à Inglaterra, em fevereiro de 1998: desta vez, à cidade inglesa de Box, para os estúdios Real World, pertencentes a Peter Gabriel.

 

 Gravação do disco Brasil Afora no estúdio Ilha dos Sapos, na Bahia

Para o Longo Caminho, novamente os Paralamas arriscaram trabalhar com um produtor cujo trabalho não conheciam – embora tivesse feito parte da geração dos anos 1980, como guitarrista do Ultraje a Rigor, Carlo Bartolini fora morar e trabalhar nos Estados Unidos, e só naquela época voltava ao Brasil. Inaugurou em São Paulo os estúdios Mega. E lá, em julho de 2002, Bartolini mixou Longo Caminho – que ele mesmo gravara entre março e abril, nos estúdios AR, no Rio de Janeiro, com alguns detalhes adicionais gravados entre maio e junho, no Tweety, estúdio caseiro de Herbert Vianna. 

 

Nos dois discos seguintes de estúdio, o padrão de trabalho dos Paralamas não mudou muito. Em Hoje, Liminha e Carlo Bartolini dividiram os trabalhos de gravação, no estúdio AR – apenas tomaram caminhos diferentes na mixagem (Liminha numa unidade móvel do Nas Nuvens, Bartolini no Mega). Brasil Afora teve novidade no local de gravação: o estúdio Ilha dos Sapos, que Carlinhos Brown mantém no bairro do Candeal, em Salvador. Ao jornal paranaense Gazeta do Povo, em 2009, Barone explicou a opção: “Não fomos para Salvador atrás de nenhum ritmo baiano, fomos até lá por conta do lugar, que é a ‘sala de estar’ da casa do Brown. Ali descobrimos uma vibração bacana, um clima superlegal. Passamos oito dias de trabalho entocados dentro do estúdio, brincando, experimentando, e essa vibe ficou impressa nas canções”. Liminha seguiu na gravação, como produtor do álbum – e o mixou junto de Vitor Farias, na unidade móvel do Nas Nuvens.

Os Paralamas e Mario Caldato Jr. nas gravações de “Sinais do Sim”

Sinais do sim trouxe um produtor que trabalhou com os Paralamas pela primeira vez: Mario Caldato Jr., de trabalhos célebres no Brasil (Planet Hemp, Marcelo D2, Marisa Monte, Nação Zumbi, Vanessa da Mata) e fora dele (Beastie Boys, Money Mark, Super Furry Animals). De novo, rapidez nos trabalhos: 14 dias para a gravação, no Visom, estúdio no bairro carioca de São Conrado. A mixagem, novamente no exterior: no MCJ, estúdio de Caldato em Los Angeles, onde o produtor mora, com Bi Ribeiro supervisionando os trabalhos.

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