2018 | Os Paralamas do Sucesso
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A história dos Paralamas através dos estúdios

 

No início de tudo, em 1982, qualquer estúdio servia para os Paralamas do Sucesso: para aqueles três garotos iniciantes, o sonho era gravar uma fita demo para conseguir tocar na Rádio Fluminense – e, a partir daí, fazer um show no Circo Voador. Com o dinheiro da bilheteria conseguida nos shows de 30 de novembro e 1º de dezembro de 1982, no Western Club (casa no bairro carioca do Humaitá), enfim a banda nascente conseguiu alugar horas num estúdio para gravar. Era o Retoque, de propriedade do percussionista Chico Batera, também localizado no Rio. O primeiro estúdio por que os Paralamas passavam na carreira. No Retoque, com uma simples mesa de oito canais, gravaram a fita demo, ainda no fim de 1982.

 

Na biografia Os Paralamas do Sucesso: Vamo batê lata, Herbert Vianna lembrou-se vagamente daquela primeira experiência de gravação ao jornalista Jamari França, citando o primeiro contato com Nelson, técnico de som que trabalhava no Retoque e foi o responsável pela gravação: “O Nelson perguntou: ‘Vocês vão gravar base primeiro?’. A gente olhou um pro outro, ninguém sabia o que era base, aí ele explicou [nota: base é o arranjo da música, que pode ser gravado com todos os músicos juntos ou separadamente, para só depois o vocal ser colocado]. Gravamos todo mundo tocando junto, só o solinho de guitarra era no playback, e a voz também”.

 

A fita demo ajudou a acelerar os caminhos, você sabe: os Paralamas conseguiram tocar na Rádio Fluminense e se apresentar no Circo Voador. O contrato final com a EMI-Odeon rendeu a eles o acesso quase imediato a outro ambiente, bem maior. Que seria a segunda casa da banda, por muitos anos. Até com endereço: rua Mena Barreto, 151, Botafogo, Rio de Janeiro. Ali ficava o complexo de estúdios que a EMI-Odeon mantinha no Brasil (até os anos 1990, era comum cada gravadora manter o seu próprio estúdio de gravação).

Os estúdios da EMI possibilitavam a convivência entre os artistas contratados da gravadora, invariavelmente gravando os álbuns pelos estúdios da Mena Barreto. Também havia o charme todo especial dos equipamentos analógicos – há uma “lenda urbana”, segundo a qual a mesa de som do estúdio 2 fora trazida diretamente de Abbey Road, e usada na mixagem do álbum homônimo dos Beatles. Não bastassem todas essas referências, os Paralamas ainda foram colocados frente a frente com experientes técnicos de som que trabalhavam na EMI. Como Amaro Moço, que tinha discos da família Caymmi (o pai Dorival, os irmãos Nana, Dori e Danilo) no currículo – e foi um dos técnicos de gravação de Cinema mudo. Ou Guilherme Reis (já falecido), que trabalhara com grandes nomes da música brasileira (Elis Regina, Ivan Lins, Djavan), e ficou responsável pela mixagem do disco de estreia dos Paralamas.

 

Responsável pela produção de Cinema mudo e O passo do Lui, Marcelo Sussekind já tinha longa história de serviços nos estúdios – e nos palcos da vida também, tocando guitarra. Sussekind foi só elogios ao comportamento dos novatos naqueles primeiros tempos de EMI, falando para o livro biográfico de Jamari França: “Os Paralamas são uma banda muito tranquila, não houve aquela coisa da luz vermelha [acesa, indicando que se está gravando], o cara vai gravar e treme na base”. Com a comodidade dos estúdios serem propriedade da gravadora, era possível ousar nas experiências técnicas. Uma delas ajudou muito no som de bateria em O passo do Lui: “Na época não existiam as facilidades eletrônicas de hoje e você tem um som de bateria ali que eu acho que até hoje ninguém atingiu. Eu e Franklin [Franklin Garrido, técnico de som da EMI] ficamos uma semana tirando aquele som de bateria, mexendo no teto da Odeon, porque o teto se mexia para alterar a acústica. Microfone em tudo quanto era lugar, tinha os microfones da bateria, [microfone] ambiente no chão, ambiente no teto, ambiente longe”.

 

Em texto feito para o livreto da lata Pólvora, lançada em 1997 com todos os discos remasterizados dos Paralamas, João Barone lembrou: “Essas gravações [nos estúdios da EMI] nos fazem lembrar da época em que cruzávamos nos corredores com a Blitz, Nana Caymmi, Egberto Gismonti, Legião, Plebe Rude e muitos outros amigos de então e sempre. (…) Eram máquinas pouco confiáveis, que quebravam a toda hora. Mas, no lado humano, havia um clima inigualável, comparado aos melhores dias na escola (lembra quando o professor faltava?). Tudo isso com o sabor de sanduíches de provolone que vinham do bar da esquina salvar a fome nas madrugadas…”. No mesmo texto, Barone lembrou-se de uma das práticas mais disseminadas para passar o tempo entre uma gravação e outra na Mena Barreto: as partidas de “vôlei de estúdio”, das quais a Legião Urbana também era praticante fervorosa. “A sala onde gravamos ótimos sons de bateria e cordas servia também como quadra de vôlei – marcada no carpete com fita crepe e com as tapadeiras acústicas [biombos para evitar vazamento de som] como rede, para desespero do pessoal da manutenção. Mas no final das sessões, estava até o presidente da gravadora na dupla de fora esperando para entrar!”.

 

Com os dois primeiros discos gravados na Mena Barreto, porém, uma tentação logo cresceu sobre os Paralamas. Tentação comum em muita gente nos anos 1980: gravar no Nas Nuvens. De fato, o estúdio do produtor Liminha, inaugurado em 1984 e localizado na rua Caio de Melo Franco (no Humaitá, também no Rio), era a última palavra em matéria de modernidade: mesas de som de 48 canais, instrumentos antigos… sem contar o clima, tão bom quanto o dos estúdios da EMI. Pois bem: foi justamente valendo-se da tecnologia de ponta do Nas Nuvens que os Paralamas gravaram Selvagem?, tendo como técnico de gravação Vitor Farias (já então e até hoje, fiel escudeiro de Liminha nas produções do estúdio).

 

No texto da lata Pólvora, Barone reconheceu: “Gravar no Nas Nuvens foi como brincar no melhor Autorama já montado no Rio de Janeiro”. Adiante, o baterista lembrou o grau de complexidade da mixagem, feita pelos três, junto de Liminha e Vitor Farias: “Eu e Bi levamos ao extremo as ‘capacidades jamaicanas’ do estúdio, assim como a paciência de todos que estavam trabalhando. Éramos os ‘ciscadores’ e o Bi, em especial, desenvolveu um talento incomum nos comandos de ecos digitais e caixas Leslie, o Rei do Dub!”. Talento desenvolvido na marra: Bi lembrou que durante a mixagem, para os efeitos dub das músicas do álbum, precisava apertar botões e pedais no momento exato da música, já que nenhum recurso de correção posterior existia.

 

Se os três primeiros discos de estúdio haviam deixado memórias saborosas, Bora Bora rendeu sérias dificuldades na mixagem: após a gravação de D em Montreux, mais uma experiência internacional dos Paralamas, no Townhouse Studios, em Londres, em março de 1988, junto de Renato Luiz, o técnico que mixou o álbum. Produtor do álbum junto da própria banda, o técnico de som Carlos Savalla lembrou do azar e do trabalho árduo: as fitas de 24 canais usadas na gravação do quinto disco, produzidas pela empresa alemã Agfa, vieram de um lote defeituoso e estavam apodrecidas, trazendo o risco de perder todo o trabalho já gravado.

 

Daí veio a lembrança de Savalla: “As fitas soltavam óxido e a gente só percebeu isso depois que passamos a manuseá-las. Tem músicas cuja mixagem fizemos rezando de joelhos para acabar. ‘Uns dias’ é um exemplo disso. As fitas do Bora Bora não existem mais, só existe esse material que está aí”.

 

A lição foi aprendida, como indicaram os trabalhos posteriores. Ainda gravado nos estúdios EMI, Big Bang foi mixado por Renato Luiz, Beto Pimentel, Carlos Savalla e os três Paralamas nos estúdios Impressão Digital, no Rio, recém-abertos pelo produtor Marco Mazzola. Processo ainda mais luxuoso foi feito em Os Grãos: os Paralamas, junto de Liminha e Carlos Savalla (produtores do álbum), mixaram o álbum no estúdio Music Grinder, em Los Angeles, junto do técnico de som Brad Gilderman, que tinha no currículo álbuns de Prince e Janet Jackson. Já a gravação marcou o fim de uma época: com os custos aumentando, a EMI desativou os estúdios da Mena Barreto no início dos anos 1990, e Os Grãos foi o último trabalho gravado lá (com Franklin Garrido, Savalla e Liminha como técnicos). Ainda assim, o espaço continuou fazendo parte da história dos Paralamas – rebatizado Espaço Odeon, ali a banda fez os ensaios gerais antes de gravar o Acústico, em 1999.

 

Para Severino, os Paralamas ousaram ainda mais. Após Phil Manzanera, do Roxy Music, se interessar em produzir o álbum, Herbert, Bi, Barone, José Fortes, o produtor Chico Neves e o percussionista Eduardo Lyra foram gravar e mixar o álbum na Inglaterra, no Gallery Studios, propriedade de Manzanera na cidade de Chertsey, onde trabalharam entre dezembro de 1993 e fevereiro de 1994. Alguns problemas técnicos retardaram o lançamento, como Bi Ribeiro comentou: “O Chico Neves levou prontas algumas coisas programadas de percussão, era só dar um jeito de fazer o computador funcionar e gravar. Só que o sistema que eles tinham lá era Atari, eu acho, e o nosso era Macintosh, um negócio assim, aí deu incompatibilidade. (…) Normalmente, eu e João gravamos todas as bases em dois dias, mas acho que nesse disco a gente quis fazer música por música. (…) A gente ficou fora muito tempo e não resolvia, foi meio agonizante”.

 

Posteriormente, os discos de estúdio dos Paralamas tiveram trabalhos mais rápidos. Em duas semanas de 1996, 9 Luas foi gravado no Impressão Digital, e em um mês a mixagem foi feita por Brad Gilderman no estúdio The Enterprise, em Los Angeles. Para Hey Na Na, mais um avanço tecnológico foi feito: trabalhando com Chico Neves em seu estúdio (o 302, no Rio de Janeiro), a banda enfim conheceu o Pro Tools, programa que permitia editar gravações no computador – do qual Chico foi pioneiro no Brasil. E a mixagem rendeu mais uma viagem à Inglaterra, em fevereiro de 1998: desta vez, à cidade inglesa de Box, para os estúdios Real World, pertencentes a Peter Gabriel.

 

 Gravação do disco Brasil Afora no estúdio Ilha dos Sapos, na Bahia

Para o Longo Caminho, novamente os Paralamas arriscaram trabalhar com um produtor cujo trabalho não conheciam – embora tivesse feito parte da geração dos anos 1980, como guitarrista do Ultraje a Rigor, Carlo Bartolini fora morar e trabalhar nos Estados Unidos, e só naquela época voltava ao Brasil. Inaugurou em São Paulo os estúdios Mega. E lá, em julho de 2002, Bartolini mixou Longo Caminho – que ele mesmo gravara entre março e abril, nos estúdios AR, no Rio de Janeiro, com alguns detalhes adicionais gravados entre maio e junho, no Tweety, estúdio caseiro de Herbert Vianna. 

 

Nos dois discos seguintes de estúdio, o padrão de trabalho dos Paralamas não mudou muito. Em Hoje, Liminha e Carlo Bartolini dividiram os trabalhos de gravação, no estúdio AR – apenas tomaram caminhos diferentes na mixagem (Liminha numa unidade móvel do Nas Nuvens, Bartolini no Mega). Brasil Afora teve novidade no local de gravação: o estúdio Ilha dos Sapos, que Carlinhos Brown mantém no bairro do Candeal, em Salvador. Ao jornal paranaense Gazeta do Povo, em 2009, Barone explicou a opção: “Não fomos para Salvador atrás de nenhum ritmo baiano, fomos até lá por conta do lugar, que é a ‘sala de estar’ da casa do Brown. Ali descobrimos uma vibração bacana, um clima superlegal. Passamos oito dias de trabalho entocados dentro do estúdio, brincando, experimentando, e essa vibe ficou impressa nas canções”. Liminha seguiu na gravação, como produtor do álbum – e o mixou junto de Vitor Farias, na unidade móvel do Nas Nuvens.

Os Paralamas e Mario Caldato Jr. nas gravações de “Sinais do Sim”

Sinais do sim trouxe um produtor que trabalhou com os Paralamas pela primeira vez: Mario Caldato Jr., de trabalhos célebres no Brasil (Planet Hemp, Marcelo D2, Marisa Monte, Nação Zumbi, Vanessa da Mata) e fora dele (Beastie Boys, Money Mark, Super Furry Animals). De novo, rapidez nos trabalhos: 14 dias para a gravação, no Visom, estúdio no bairro carioca de São Conrado. A mixagem, novamente no exterior: no MCJ, estúdio de Caldato em Los Angeles, onde o produtor mora, com Bi Ribeiro supervisionando os trabalhos.

Lembranças das Copas

 

É tempo de Copa do Mundo. E neste fim de semana que marca a estreia do Brasil no torneio, lembramos um momento (entre alguns) no qual os Paralamas do Sucesso puderam conjugar o trabalho na música com o futebol. Foi há 20 anos, quando a Copa estava acontecendo na França. Hora da lembrança!

Em 1991, na revista Bizz, numa série de três matérias com a história da banda até ali, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone tiveram de responder um típico questionário jornalístico pessoal (com nome, data de nascimento, livro preferido, filme preferido, disco preferido etc.). Uma das perguntas era sobre o time do coração. Nela, cada um deu a mostra de seu gosto – ou até falta dele – pelo futebol. Herbert se assumia como “Flamengo doente”, o que ainda é; Bi, mais afastado do esporte, se dizia “Flamengo curado”; Barone, se definiu como “Fluminense sofredor”.

No entanto, maior ou menor, havia certa ligação com o esporte. Expressa em outros momentos, como a participação na edição de 1997 do saudoso Rockgol, torneio entre músicos organizado pela MTV brasileira. Está certo que ela foi esquecível: num combinado com a Nação Zumbi, mais alguns músicos (como Bidu Cordeiro), nossos conhecidos foram eliminados logo na primeira partida – perderam de 10 a 1. Mas valia pela brincadeira.

 

(Da esquerda para a direita: Herbert, o produtor artístico Cesar Gavin, Barone, Bi e Bidu Cordeiro, no Rockgol de 1997. Crédito: Arquivo pessoal de Cesar Gavin)

Com a turnê de Hey Na Na já na estrada, veio um convite especial: de Gilberto Gil. Era para participação num show na… França, sede da Copa de 1998. Local: o mesmo Olympia, em Paris, onde os Paralamas já haviam se apresentado em 1987. A data da apresentação? 10 de junho de 1998, mesmo dia em que a Copa começaria – com o Brasil, então tetracampeão mundial, fazendo o jogo de abertura contra a Escócia.

Era tentação demais. E como se vê na foto que abre este texto, lá se foram Herbert, Bi e Barone (mais José Fortes), de camisa da Seleção, para o Stade de France, estádio em Saint-Denis, cidade na região metropolitana de Paris, verem a partida. Sofreram um pouco, tanto pelo jogo em si, quanto pela dúvida: qual seria o clima da apresentação de mais tarde caso os brasileiros falhassem em campo? O alívio veio com a vitória por 2 a 1 sobre os escoceses. E a apresentação com Gil, amigo e inspirador, serviu para a festa dos torcedores brasileiros naquela noite em Paris.

(Os Paralamas com Gilberto Gil, em 10 de junho de 1998, pouco antes do show em Paris, após Brasil 2×1 Escócia, jogo de abertura da Copa do Mundo naquele ano)

Com muitos eventos culturais durante a Copa, a França fervilhou. E os Paralamas tiveram mais uma apresentação lá enquanto o futebol corria solto: em 25 de junho, nossos conhecidos estiveram no palco, no festival “Brahma Brasil Sud-à-sul”, no qual foram sete dias com shows de brasileiros em Sanary-sur-Mer, balneário na Côte D’Azur, perto de Marselha. Ao jornalista Jamari França, para a biografia Vamo Batê Lata, Herbert se lembrou do festival: “[No dia 24] nós vimos o show do Skank, o Samuel me viu na plateia, me chamou e eu toquei seis músicas com eles. O Bi ficou superemocionado porque lembrou da época em que o Skank estava começando em Belo Horizonte. No dia seguinte, foi o show da Fernanda Abreu, e depois, o nosso”.

A turnê de Hey Na Na tinha que continuar no Brasil, e os Paralamas voltaram. Já no Brasil, assistiram àquela  triste derrota na final para a França, em 12 de julho de 1998 – aquela com a polêmica nunca completamente respondida sobre Ronaldo… Fosse como fosse, o dever chamava: a banda faria show também naquele domingo. A Jamari França, Herbert se aliviou: “Vimos o Brasil perder, e no dia da final, tínhamos show numa cidade perto de Belo Horizonte. Eu achei que ia ser difícil subir no palco para tocar naquele clima de derrota, mas era uma feira daquelas, gente que não acabava mais, e nego não estava nem aí. Foi muito bom, apesar da frustração”.

Os Paralamas de volta ao vinil

Começou no ano passado, com o lançamento especial de “Sinais do sim”. Continuou em 2018, com a versão de “9 Luas” em LP. Está clara e reativada a relação entre os Paralamas do Sucesso e o vinil. Então, é mais do que apropriado um texto para descrever como eram os lançamentos da banda nos conhecidos “bolachões”, entre 1983 e 1995, quando a produção foi descontinuada (até agora…) Confira!

No começo, foi um compacto simples. A discografia dos Paralamas do Sucesso começou com um pequeno vinil, que tinha duas canções – uma de cada lado -, servindo como uma “entrada” rumo ao LP completo. Em março de 1983, Herbert, Bi e Barone entraram nos estúdios da EMI-Odeon para gravarem as duas faixas (como, de resto, todo o disco). Quais eram? Quase todos as conhecem: “Vital e sua moto” e “Patrulha Noturna”.

Quando o compacto com elas foi lançado em abril de 1983, vieram para a imprensa junto de um texto de apresentação. Nele, Luiz Antônio Mello, coordenador da Rádio Fluminense FM (que, afinal, dera o espaço sonhado para os Paralamas), descrevia o curto caminho dos três até ali: “O grupo ‘Os Paralamas do Sucesso’ é um dos cumes da nova geração do rock brasileiro. Formado por Herbert Vianna (22 anos – vocal e guitarra), Bi Ribeiro (23 anos – baixo) e João Barone (20 anos – bateria), o grupo vem desenvolvendo um trabalho que tem como características básicas uma bem-humorada preocupação com os problemas sociais/existenciais da juventude brasileira. (…) Os Paralamas do Sucesso chegaram ao grande público através de uma fita quase artesanal que foi levada à Rádio Fluminense FM (…)”.

Descrito o caminho, Luiz Antônio Mello comentou sobre as músicas: “A EMI-Odeon se interessou pelo trabalho e convidou o grupo para gravar este compacto que está saindo agora. Os Paralamas regravaram ‘Vital e sua moto’ e ‘Patrulha noturna’ – ambas de Herbert Vianna – que estão tendo grande repercussão. ‘Vital e sua moto’ satiriza o drama do chamado garotão cuja vida não faz sentido se ele andar a pé. Já ‘Patrulha Noturna’ aborda uma outra pedra que frequenta os sapatos deste mesmo garotão: ‘Qual é, seu guarda/Que papo careta/Só estou tirando chinfra com a minha lambreta’”.

A partir de então, quem começasse a acompanhar os Paralamas se acostumaria a várias coisas. Por exemplo, ouvir os LPs com o rótulo ainda colorido da EMI-Odeon – só a partir de Selvagem? é que os trabalhos dos Paralamas viriam com selos personalizados. Ou então, se acostumar a ler vários nomes na ficha técnica. Como o do designer Ricardo Leite, autor de todas as capas dos discos de estúdio dos Paralamas nos anos 1980. Ou de gente que trabalhava nos estúdios da EMI e era responsável pelos vários processos do estúdio até o vinil. Exemplos eram os técnicos de mixagem nas gravações, como Guilherme Reis, Renato Luiz ou Franklin Garrido. Ou Osmar Furtado, responsável pelo “corte” dos LPs na EMI-Odeon. (Parêntese: “corte” era o processo de reduzir – “cortar” – as frequências do áudio gravado, para que elas coubessem nos sulcos do acetato. Caso contrário, a agulha do toca-discos poderia pular do vinil, ao se passar por uma frequência mais alta.)

Com O Passo do Lui sendo lançado em outubro de 1984, ainda vieram mais dois compactos simples. Um deles, lançado pouco antes do LP – com “Óculos”, a primeira música a ter ido para as rádios. E ela veio em dose dupla no compacto. No lado A, a versão conhecida; no B, apenas a base instrumental, para servir de “karaokê” a quem quisesse se arriscar (outro hábito daquela época: para citar outro compacto lançado então, “O último romântico”, de Lulu Santos, também tinha a versão original no lado A e a versão “karaokê”, no B). No segundo compacto originário de O Passo do Lui – já em 1985, com o LP nas lojas -, os Paralamas ainda reabilitaram uma canção de Cinema Mudo: “Foi o mordomo”, que vinha no lado B. O lado A tinha a segunda música do disco a ser divulgada: uma certa “Meu erro”.

Foi o ponto final de lançamento público dos compactos simples. A partir de Selvagem?, somente o álbum completo ficaria à venda, enquanto os compactos somente seriam distribuídos a jornalistas e radialistas. Outra novidade que ficou à margem dos fãs foram as canções adicionais. Pela limitação de tempo nos lados de cada LP (só cabiam cerca de 20 minutos de música), algumas canções gravadas eram descartadas do vinil, indo para os formatos em fita K-7. Foi o que aconteceu com “Teerã Dub”, mais uma versão dub de uma música de Selvagem?. Seria o que aconteceria com a versão em estúdio de “Será que vai chover?”, mais uma que ficou restrita ao K-7, em D, no ano seguinte, 1987.

A restrição aos compactos simples também impediu que mais fãs conhecessem certas pepitas contidas neles. Como a versão remix de “Óculos”, reabilitada no lado B do compacto para divulgar “Uns dias”, das primeiras canções de Bora Bora que se tornaram conhecidas – compacto restrito apenas para presentes aos ouvintes da Alternativa FM, rádio carioca. Na versão final de Bora Bora, também ficou de fora “The Can”, a segunda improvisação feita pelo toaster (uma espécie de “rapper” do reggae) Peter Metro sobre a base instrumental dos Paralamas – a primeira letra, “Don’t give me that”, está no LP.

Com uma pausa para o luxuoso lançamento de Arquivo, a primeira coletânea paralâmica, em 1990 (pela primeira vez, um LP da banda saía com capa dupla), Os Grãos e Severino também sofreram com essas perdas forçadas pela limitação do vinil: o primeiro saiu sem “Trinta anos”, e o segundo, sem as versões em espanhol de “Go back”, dos Titãs, e “Quase um segundo”. Se servisse de consolo, Severino foi enviado à imprensa com um encarte adicional, contendo várias obras do artista plástico Arthur Bispo do Rosário (1909/1911-1989), cujo trabalho inspirou a arte gráfica de Severino.

Todas essas ausências musicais foram resolvidas em 1997: afinal, as canções faltantes nos LPs estavam nas versões remasterizadas para CDs, lançadas na caixa/lata Pólvora, em 1997. Aliás, o próprio conceito de “remasterização” tem a ver com o vinil: a fita master das gravações para aquele formato tinha não só frequências típicas dos LPs, mas também podia ter falhas, instrumentos não audíveis ou prejudicados pelo “corte” para o vinil. Pois bem, a remasterização para CD servia exatamente para isso: aumentar a qualidade sonora – embora alguns admiradores do vinil coloquem em dúvida sua real eficácia, dizendo que apenas se aumenta o volume da fita já existente, não a qualidade.

Finalmente, Vamo Batê Lata – Paralamas ao vivo fora o último trabalho da banda para vinil, em 1995, quando o CD já tomava conta dos aparelhos dos ouvintes, portáteis ou não. Porém, 23 anos depois, a multiplicidade de formatos aumentou. Tanto nos arquivos digitais, disponíveis em várias plataformas, quanto nos vinis que voltam a ser produzidos. Até para preencher essa demanda, as versões especiais de Sinais do Sim e de 9 Luas.

A inspiração que Salvador nos traz

Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Natal, João Pessoa, Porto Velho… e agora, Salvador! A queridíssima capital baiana receberá os Paralamas do Sucesso no próximo dia 27, para mais uma apresentação da turnê de “Sinais do Sim”, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, um lugar que já viu diversas apresentações, em uma cidade que já serviu de cenário para momentos marcantes e inspirados da carreira da banda.

 

A primeira vez dos Paralamas em Salvador foi em meados de 1985, quando a turnê de O Passo do Lui passou por lá. A admiração mútua foi imediata. Não demorou para que os Paralamas retornassem às terras soteropolitanas, para mais shows. Alguns, em lugares conhecidos dos anos 1980 – como o circo Troca de Segredos, em Ondina, à beira-mar, ponto certo para apresentações dos vários nomes da geração que tomava a música brasileira de assalto naquela década.

Um desses momentos marcantes foi em meados de 1986. As andanças soteropolitanas já haviam motivado Herbert Vianna a compor “Alagados”, com a favela como uma das imagens evocadas na letra, lado a lado com Trenchtown (o conjunto de casas feitas de palafitas, em Kingston, capital da Jamaica) e a carioca Favela da Maré. Pois bem: tempos depois, a menção rendeu uma das maiores homenagens que os Paralamas já receberam.

Ela ocorreu num show em outubro de 1986, já na turnê de Selvagem?, e foi contada por Herbert à revista Bizz: “A gente tocou nos Alagados, num clube chamado Periperi, um lugar enorme onde cabem 20 mil pessoas. E as pessoas que vão aos shows lá moram nos Alagados. Foi genial o show lá, e no dia seguinte nós fomos convidados para assistir ao ensaio de um bloco afro chamado Ara Ketu, do pessoal de lá. No meio da favela, radical pra caralho, só crioulo, meio-dia, um puta sol, uma bateria tocando os batuques e cantando tudo em nagô e as pessoas respondendo em nagô, dançando. Aí a bateria parou e fez um cumprimento para a gente. Porra, nós somos três moleques da Zona Sul do Rio! Ter atingido isso é do caralho”.

A relação estava madura. E só se aprofundaria: durante a metade final da década de 1980, a fase que os Paralamas viviam na carreira fazia com que se interessassem cada vez mais não só por ir a Salvador, mas também por conhecer o cenário musical fervilhante que a capital da Bahia vivia. Este cenário influía até nas turnês da banda. Em 24 de abril de 1988, com o Olodum como banda de abertura, houve uma volta ao ginásio do Esporte Clube Periperi – aquele da grande homenagem em 1986.

Pouco menos de três meses depois, em 15 de julho, com a turnê de Bora Bora na estrada, os Paralamas já retornavam à cidade, para uma apresentação na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Agora, com o Olodum como parte do show principal: oito percussionistas se somaram à banda, com a regência do segundo mestre de bateria do bloco, Jackson, mais o vocalista Beto do Carmo. Prato cheio para versões de dois hits baianos no repertório daquela performance: “Ladeira do Pelô”, do próprio Olodum, e “Eu sou negão”, histórico sucesso de Gerônimo.  Mais um acréscimo para a noite histórica: mesmo sob uma chuva torrencial caindo sobre a Concha Acústica, a ponto de trazer perigo aos músicos pelos choques tomados, os Paralamas seguiram normalmente com o show. Deixaram Salvador ainda mais admirados.

De quebra, “Eu sou negão” entrou no repertório regular das apresentações daquela turnê – assim como a inserção de “Depois que o Ilê passar”, canto do Ilê Aiyê, em meio a “Melô do marinheiro”. Nada mais compreensível que aquela geração, também pioneira, fazendo a música pop brasileira olhar para a mescla que ocorria na Bahia (lambada, juju music, high life, ritmos caribenhos a granel), recebesse um afago paralâmico: “Jubiabá”, versão de Gerônimo para “Give me the things”, mais um sucesso do cantor baiano, ganhava uma releitura em Big Bang.

 

 

Não bastasse isso, uma outra música de Big Bang, segundo o próprio Herbert Vianna conta, “Lanterna dos Afogados” foi intitulada tendo em mente um capítulo de “Jubiabá” (mais coincidência…), livro de Jorge Amado, no qual se comentava sobre um bar homônimo, no cais do porto, onde as mulheres vinham esperar os maridos que voltavam do dia de trabalho no mar.

Mais inspiração? Herbert a conseguiu, com auxílio de um personagem marcante na cena soteropolitana, cuja aparição nacional começou ao colocar uma canção na boca de Caetano Veloso (“Meia-lua inteira”, de 1989) e não parou mais: Antônio Carlos Santos  de Freitas, vulgo Carlinhos Brown. Ele já tivera uma vinculação aos Paralamas: em Os Grãos, Carlinhos foi um dos percussionistas em “Carro Velho”, junto a Léo Bit-Bit e Tripé, integrantes do grupo Vai Quem Vem. Mas o capítulo mais decisivo dessa aproximação surgiu em 1994. Em mais uma visita dos Paralamas a Salvador, Herbert fez questão de encontrar Carlinhos Brown, em seu habitat natural: o bairro do Candeal.

O que viveram lá fez o cantor/compositor/guitarrista se impressionar, no making of para Vamo batê lata: “Ele é diretamente ligado a Deus. Nunca conheci uma pessoa tão impressionante em termos de criatividade – de quantidade e de qualidade. É o maior compositor que eu já conheci. (…)” A canção que ambos fizeram no Candeal saiu dali, foi gravada como uma das quatro inéditas de Vamo batê lata e virou outra das canções mais conhecidas da banda: “Uma brasileira”. Herbert descreveu: “Eu ficava com a melodia e ele ia rodando – ele vai rodando, assim, gritando, correndo, ‘rapaz, é… é… é não-sei-quê’, qualquer palavra, ‘é o milho, é o milho’. Eu ia anotando, né? Ia vendo o som da palavra, ‘isso parece com isso’… que tal se a gente fala ‘uma brasileira, ô’…”.

E estava feita a canção que selaria a proximidade entre os Paralamas e Brown. A ponto de surgirem daí outras participações – como em “Yarahá”, canção lançada em “Adobró”, trabalho de 2010. Ou a canja na edição de 2012 do “Sarau do Brown”, que o próprio organiza anualmente em Salvador. Ou o show na Arena Banco Original, no Rio de Janeiro, no ano passado – lá tocaram “Uma brasileira”:

Brown era mais um amigo que os Paralamas faziam em Salvador. Assim como Daniela Mercury, a quem Herbert Vianna deu força desde que a carreira solo decolava – basta lembrar de dois sucessos dela que ele compôs, “Só pra te mostrar” (1992 – Herbert ainda participava e tocava guitarra na música) e “Sempre te quis” (1994). Assim como Ivete Sangalo, que sempre fez questão de declarar quanto os Paralamas a influenciaram desde a adolescência – e que também recebeu presentes de Herbert que viraram sucesso: “Se eu não te amasse tanto assim”, de 1999, e A lua q eu t dei”, de 2000.

Com tamanha proximidade, nem era necessário que mais momentos marcantes viessem para os Paralamas em Salvador. Mas vieram. O primeiro deles, arrepiante: em 29 de janeiro de 2003, a participação no Festival de Verão de Salvador, numa das primeiras apresentações de grande porte feitas pela banda após o início da turnê de Longo Caminho, o “álbum da volta”. Há pouco a falar, e muito a ouvir:

 

 

Se aquele show de 2003 tinha um misto de emoções, em 2008 foi só alegria. Os Paralamas procuravam um estúdio para gravar o disco. Carlinhos Brown abriu o Ilha dos Sapos, o estúdio que montou no bairro do Candeal, para as primerias gravações de Brasil Afora. Caiu como uma luva, segundo João Barone escreveu, num texto intitulado “Em busca da vibe perfeita”: “Antigamente, procurávamos gravar em estúdios com as melhores condições técnicas, via de regra, caros e sofisticados. (…) Mas nós fomos gravar lá por um motivo mais importante: a busca da vibe perfeita”.

De quebra, duas visitas especiais alegraram ainda mais os Paralamas. “No último dia de gravação, recebemos no estúdio as visitas inesperadas de Geraldinho Azevedo e Ivete Sangalo, que estavam gravando num outro estúdio perto dali e apareceram para uma social. Herbert aproveitou e promoveu o seu já tradicional sarau, tocando e cantando um monte de músicas ao violão, junto com Ivete, que – para surpresa geral – tomou conta de minhas baquetas e mandou ver na bateria, acompanhando Herbert com algumas batidas muito bem executadas! Essa menina ainda vai longe!”.

Para terminar, o baterista praticamente resumiu a relação que une os Paralamas a Salvador: “Desta vez a Bahia nos deu algo muito mais precioso, difícil de medir, mas fácil de sentir. Estávamos super à vontade, como se a gente não tivesse saído de casa. Os trabalhos rolaram na maior harmonia, sob as bênçãos dos orixás. Deve ser isso que eles chamam de axé… e o axé foi fortíssimo!”.

Continua sendo forte. Porque a Concha Acústica do TCA foi sede de um dos primeiros shows da turnê comemorativa dos 30 anos da banda, em 19 de maio de 2013. E será sede de mais um reencontro dos Paralamas com uma terra que já lhes deu muita inspiração.

 

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IMPRENSA: Release e Fotos Oficiais

 

 

Disponibilizamos aqui o release oficial do nossonovo disco, “Sinais do Sim“, o 13. disco de estúdio da banda, lançado no dia 04/08/2017.

Como complemento, seguem 3 fotos de divulgação em alta resolução. Crédito das Fotos – Maurício Valladares

 

Clique aqui para baixar o press kit oficial!

 

Sinais do Sim no Nordeste

 

Os Paralamas do Sucesso chegam ao Nordeste trazendo a turnê de “Sinais do sim”. Será um final de semana inteiro começando em João Pessoa (Teatro Pedra do Reino, no dia 02), passando por Natal (Teatro Riachuelo, no dia 3) e fechando em Recife (Teatro Guararapes, no próximo domingo). Hora de lembrar um excelente momento: o recomeço dos Paralamas nos palcos, que foi exatamente nessa região!

 

Desnecessário comentar mais sobre a relação íntima entre os Paralamas e João Pessoa – até porque ela já foi comentada aqui, neste texto. No entanto, houve uma ocasião especial, sobre a qual o texto publicado em 2016 passou batido. Porque quando o caminho da banda pelos palcos recomeçou, em 2002, o ponto inicial foi escolhido pelo recuperado filho da terra: com Longo Caminho já lançado havia um mês, a pedido de Herbert Vianna, “Jampa” foi o local do primeiro show daquela turnê – ou seja, do primeiro show dos Paralamas do Sucesso aberto ao público em geral após o acidente. Foi em 6 de novembro de 2002, uma quarta-feira, na casa de shows Forrock.

Obviamente lotada (15 mil pessoas!) e cercada pela cobertura da imprensa, a apresentação teve um início que se tornaria dos mais impactantes das turnês dos Paralamas: Herbert, Bi e Barone, sozinhos, começando “O calibre”, sem firulas. E os três passaram mais algumas canções em cima do palco, até a entrada dos músicos de apoio (João Fera, José Monteiro Júnior, Bidu Cordeiro e o percussionista Eduardo Lyra). No repertório, tanto os sucessos que sempre estão lá (“Alagados”, “Meu erro”, “Caleidoscópio” e “Uma brasileira”, para citar só quatro) quanto lembranças de velhos amigos – “Manguetown”, de Chico Science, e “Que país é este”, da Legião Urbana. Ainda havia músicas que já não estão nas apresentações ao vivo há algum tempo, como “Vamo batê lata” – e outras que fizeram falta mas voltaram agora, como “Uns dias”.

Claro, Herbert era o grande destaque, o centro das atenções. Já mostrando o amor e a ligação com a Paraíba nas roupas (usou camisa vermelha e calça preta, as cores da bandeira do estado), o cantor, compositor e guitarrista da banda começou a falar com a plateia usando uma frase tão simples quanto definitiva: “Estou muito emocionado de estar aqui”. Citando repetidamente outras expressões de sua emoção aos conterrâneos (“É preciso ter força no coração”), Herbert era constantemente abordado por Bi, que perguntava as condições do colega recém-convalescente à medida que o show transcorria.

Felizmente para todos, as turbulências passaram longe daquele ambiente. A animação do pessoense Herbert carregou aquela apresentação, emocionando ainda mais aquela plateia. Para contentar ainda mais o ambiente, vez por outra aparecia uma bandeira da Paraíba no meio, coisa que nunca passava despercebida por Herbert. E aquele 6 de novembro ficou definitivamente marcado, por três motivos. Oficialmente, a turnê da volta dos Paralamas estava reaberta. Isso ocorrera da melhor forma possível, com um show energético para mostrar o tamanho da fome de bola que a pausa forçada deixara em todos ali. E como boas histórias não podem faltar numa turnê, o camarim rendeu uma cena hilária: coube ao próprio Herbert raspar o cabelo de Fred Castro, à época ainda baterista dos Raimundos, de melenas enormes – e que fizera exatamente a promessa de se desfazer delas caso o “cabeleireiro” se recuperasse daqueles dias duros em 2001.

Se a ansiedade pré-turnê fora aplacada pela apresentação em João Pessoa, o segundo show da turnê não poderia ser em lugar melhor: Recife. Dois dias depois, em 8 de novembro de 2002, o Classic Hall foi palco para aquele novo momento dos Paralamas do Sucesso. Outra vez, era um momento de forte emoção para a banda na capital pernambucana – como já havia acontecido em 18 de abril de 1997. Nesse dia, a banda fechou o primeiro dia de shows no palco principal do Abril Pro Rock, o principal festival recifense, realizado no Centro de Convenções de Pernambuco.

Com a turnê de 9 Luas já embalada, aquela apresentação de 1997 no Abril Pro Rock foi marcante pela alegria cercada de dores. A falta que Chico Science já fazia, após partir em fevereiro, era lembrada pela inclusão de “Manguetown” no repertório daquela turnê – e daquela apresentação. E além dos três e dos músicos de apoio naquela turnê (além de Fera e Monteiro Júnior, o trombonista Senô Bezerra – em seus últimos momentos com os Paralamas -, o trumpetista Demétrio Bezerra e Eduardo Lyra), havia outro nome em cima do palco a tentar expurgar um momento difícil: Dado Villa-Lobos, tocando guitarra e violão com os Paralamas para espairecer após a morte de Renato Russo, em 1996 – parceria que seria frutífera, seguindo para o Acústico.

Se em 1997 a tristeza permeara a alegria de estar num palco, em 2002 só havia alegria e celebração. Em João Pessoa, no Recife… e em Natal, onde a turnê de Longo Caminho chegou no dia 30 de maio de 2003. Desde então, as três capitais nordestinas são ponto certo nas turnês dos Paralamas. A mesma sequência foi feita em setembro de 2016, por sinal, no especial Paralamas Trio: sem músicos de apoio, Herbert, Bi e Barone estiveram no Teatro Pedra do Reino de João Pessoa (dia 16), no Teatro Riachuelo de Natal (dia 17) e no Teatro Guararapes do Recife (dia 18). Como será a partir deste dia 2 de março, na chegada da turnê de Sinais do sim ao Nordeste. Afinal, nada mais natural do que passar de novo pelo local onde se começou um dia – ou melhor, onde se recomeçou.
Ingressos:

João Pessoa – Sexta-feira, dia 02/03/2018 no Teatro Pedra do Reino

Natal – Sábado, dia 03/03/2018 no Teatro Riachuelo

Recife – Domingo, dia 04/03/2018 no Teatro Guararapes