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Clipes Paralamas – Anos 2000

Apresentamos agora a parte final da nossa saga com os vídeos lançados pela banda nos anos 2000, onde os DVDs foram o grande destaque. Confira!

 

Dois meses depois do lançamento do clipe de “Aonde quer que eu vá”, em dezembro de 2000, o inesperado fez uma surpresa das mais desagradáveis para os Paralamas e seus fãs. Não é preciso lembrá-la aqui. Ainda assim, “Aonde quer que eu vá” concorreu em duas categorias do VMB de 2001: melhor clipe pela escolha da audiência e melhor fotografia de videoclipe – sem contar o vídeo de “Mr. Scarecrow”, dueto de Herbert com Cássia Eller, que concorreu como melhor clipe de rock e melhor fotografia.

Nenhum dos dois vídeos ganhou nada. Ainda assim, o VMB foi cenário para um momento bastante terno: na entrega do troféu para o melhor clipe pela escolha da audiência, João Barone estava lá como um dos apresentadores, junto de Dinho Ouro Preto, Digão (Raimundos) e Toni Garrido. E foi justamente o vocalista do Cidade Negra quem fez um rápido discurso em homenagem aos Paralamas antes de anunciarem o vencedor (o Charlie Brown Jr. levou, com o clipe de “Rubão, o dono do mundo”). Uma frase de Toni sintetizava o sentimento geral: “A gente está esperando vocês, estamos com saudade prá cacete de vocês”.

Felizmente, não demorou muito para os Paralamas atenderem ao chamado de Toni Garrido. E fizeram isso com uma câmera do lado. Desde outubro de 2001, quando Herbert já estava relativamente restabelecido e voltava aos ensaios, Andrucha Waddington comandava a equipe da Conspiração Filmes na filmagem de um documentário sobre aquela recuperação tão inacreditável quanto comovente. Tudo foi filmado, dos ensaios às gravações produzidas por Carlo Bartolini, nos estúdios Mega (SP) e AR (RJ), entremeado por conversas com o trio, entre 2001 e 2002.

Esse trabalho renderia o terceiro filme dos Paralamas: Longo Caminho, DVD lançado simultaneamente ao álbum que marcou a tão esperada volta, em outubro de 2002. E renderia os videoclipe de “O calibre” e “Cuide bem do seu amor”, com imagens tiradas do documentário de Longo Caminho. Elas também serviram de fundo para o clipe de “Seguindo estrelas”, dirigido por Andrucha e Breno Silveira, lançado já em 2003: uma banca exibia as imagens do filme, numa tevê mal sintonizada, enquanto Bi Ribeiro caminhava solitário pelas ruas do Rio de Janeiro – Herbert e Barone apareciam de passagem. Já bastou para voltar ao VMB: “Cuide bem do seu amor” foi indicado a melhor clipe pela escolha da audiência e “Seguindo estrelas”, a melhor videoclipe pop e melhor direção. No Prêmio Multishow, os Paralamas tiveram a volta coroada de vez: foram eleitos o melhor grupo e João Barone foi considerado o melhor instrumentista.

 

 

A história videográfica dos Paralamas já merecia um registro dedicado somente a ela. Ele veio em janeiro de 2004: Arquivo de imagens. A banda foi atrás de vários dos clipes citados nos textos deste site, conseguiu muita coisa (incluindo o clipe de “Meu erro” para a BB Vídeo, que foi encontrado após pedido aos fãs aqui no site!), e reuniu 16 clipes históricos num DVD. Incluindo uma novidade especialmente feita para o lançamento: como “Vital e sua moto” só tinha o antigo clipe feito para o Fantástico, os nossos três conhecidos pediram um vídeo novo ao amigo Roberto Berliner. Robertinho mergulhou nos seus generosos arquivos e fez um clipe “versão 2004” da canção, com os parceiros Rogério Boechat e Pedro Bronz.

Arquivo de imagens serviu para esquentar o clima rumo ao segundo DVD da banda com show ao vivo (o terceiro, se contarmos o Acústico). Lançado em março de 2004, com quatro formatos – CD simples, CD duplo, DVD e combo CD + DVD -, Uns dias ao vivo registrava emocionante show no antigo Olympia paulistano, em 14 de novembro de 2003, com vários convidados. E todos os clipes saídos daquele álbum foram tirados do DVD: as duas canções com Roberto Frejat no palco (“Uns dias” e “Caleidoscópio”), mais “Mensagem de amor”. Incluído nos extras do DVD de Uns dias ao vivo, este vídeo também era ao vivo, mas tirado de outro show em São Paulo, no Parque do Ibirapuera, em 23 de agosto de 2003, com a participação de Andreas Kisser na guitarra.

 

 

Ainda em 2004, os Paralamas participaram de um clipe: “Atirei no mar”, parceria com BNegão, parte da trilha sonora do documentário A pessoa é para o que nasce, mais um trabalho de Roberto Berliner. Em 2005, o lançamento de mais um álbum de inéditas. E Hoje também deu o primeiro videoclipe inédito dos Paralamas desde 2002: “Na pista”, dirigido por Andrucha Waddington, mostrava um passeio de Herbert, Bi e Barone pelo Rio de Janeiro, a bordo de um Impala 1958.

Em 2006, Roberto Berliner dirigiu e produziu o DVD “Hoje” com todas as faixas do álbum, gravado em 19 e 20 de dezembro de 2005, no Pólo de Cinema do Rio de Janeiro. Contando com todas as participações especiais do CD (Nando Reis, Marcelinho da Lua, Andreas Kisser, Manu Chao), o DVD de Hoje, “ao vivo no estúdio”, ainda trazia um minidocumentário sobre o trabalho. E legou o segundo clipe dele: “De perto”, com Andreas Kisser no violão.

 

O DVD de Hoje deu início a vários trabalhos videográficos que fortaleceram a memória paralâmica. Em 2007, saiu o DVD com uma das históricas apresentações no Rock in Rio I; no ano seguinte, veio Paralamas e Titãs juntos e ao vivo, registro em vídeo (e áudio) da apresentação da turnê 25 anos de rock feita na Marina da Glória, no Rio de Janeiro; em 2009, foi a vez de Legião Urbana e Paralamas juntos, versão em DVD do especial dirigido por Roberto Talma e Jodele Larcher, exibido pela TV Globo em 1988.

 

Mas 2009 foi ainda o ano de outros dois momentos importantes na história dos clipes dos Paralamas. Com o lançamento de Brasil Afora, veio mais um clipe inédito: “A lhe esperar”, dirigido por Eduardo Souza e Rodrigo Lima. E além dele, o ano também trouxe a versão em DVD de um documentário lançado em 2005: Herbert de Perto. Novamente usando de seus generosos arquivos, Roberto Berliner dirigia junto de Pedro Bronz um longa-metragem com a biografia de Herbert Vianna. Claro, com a presença de Bi, Barone, José Fortes, os irmãos e pais de Herbert, mais vários amigos, resultando num filme tocante.

O segundo clipe a sair de Brasil Afora foi  “Mormaço”, lançado em 2010 e que trazia todo o ar nordestino da canção. A começar pelo diretor: o cineasta pernambucano Lírio Ferreira. Zé Ramalho foi convidado a participar do clipe, junto com os três Paralamas, como se fossem retirantes num pau-de-arara, cantando aquela música cuja letra descreve João Pessoa, a terra natal de Herbert e de Zé Ramalho.

 

De 2010 até hoje, os lançamentos em vídeo dos Paralamas foram dedicados aos shows. Naquele ano, em parceria com o canal de tevê a cabo Multishow, saiu o DVD com o registro do show de Brasil Afora, dirigido por Joana Mazzuchelli em 14 de dezembro de 2010, no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico carioca. Dali saiu o clipe de “Tendo a lua”, com a participação especial de Pitty, que o Multishow exibiu esporadicamente nos programas de clipes – sem contar a reprise do duo com Zé Ramalho, em “Mormaço”.

 

Em 2013, novamente veio uma parceria com um canal de tevê. Aliás, com dois canais. A turnê Os Paralamas do Sucesso – 30 anos motivou um documentário, dirigido por Bruno Maia e exibido no canal BIS, com toda a montagem da turnê, das ideias às apresentações, passando pelos depoimentos dos três Paralamas, mais fãs e amigos que assistiram aos shows (Thedy Correa, Daniela Mercury, Dado Villa-Lobos, Charles Gavin, Marcelo Yuka, Perfeito Fortuna e Rogério Flausino). Meses depois, em 20 de outubro de 2013, a apresentação no Citibank Hall carioca foi exibida ao vivo pelo Multishow. Ambos, documentário e apresentação, foram para o DVD lançado em 2014.

Pelo menos por enquanto, é isso. Mas do jeito que os Paralamas gostam de criar em cima de seus vídeos, cabe esperar com ansiedade o que vem por aí.

 

Confira a primeira e a segunda partes dessa história!

Paralamas Na Estrada – Junho 2016

 

No mês de junho, os Paralamas visitaram o interior de SP: Paraibuna (dia 10), Festival João Rock em Ribeirão Preto (dia 18), Pindamonhangaba (dia 19) e Piracicaba (dia 24).

Teve também os 2 últimos shows do projeto #NiveaVivaRockBrasil em homenagem aos 60 anos do rock brasileiro: dia 05 em Brasília e dia 26 em São Paulo.

Separamos fotos inéditas desses shows numa galeria especial que você confere aqui!

 

Selvagem? – 30 Anos

 

Há pouco mais de 30 anos – precisamente entre o meio de abril e o início de maio de 1986 -, os Paralamas do Sucesso lançavam o terceiro disco da carreira. Agora, em 2016, é comum dizer que este é um dos trabalhos clássicos da banda (e daquela geração), que é um disco avançado para seu tempo, etc. Mas, de onde surgiram essas ideias? Provavelmente do que a imprensa falou em 1986. Veja a galeria completa de fotos com todas as reportagens de imprensa citadas aqui! 


No começo de 1986, os Paralamas viviam uma pausa forçada, graças a um acidente de carro em que João Barone quebrara a perna. Era o que Herbert Vianna queria: um tempo para procurar inspiração, compor, maturar tudo o que os Paralamas haviam vivido. Os shows consagradores no Rock in Rio pareciam uma realidade distante e ingênua; desde então, a roda-viva de apresentações Brasil afora fizera aqueles três garotos amadurecerem. Herbert descreveu este processo ao jornalista José Emílio Rondeau, na reportagem sobre o lançamento do disco, para a edição de junho de 1986 da revista Bizz: “Na verdade, a gente vinha explicitando essa coisa do groove desde os últimos shows da turnê d’O Passo do Lui. Cada noite subíamos no palco com uma tonelada de equipamentos novos – delays, harmonizers, percussão eletrônica -, e ficamos reinventando as músicas todas, fazendo dubs enormes e, após um certo tempo, até enxertando os trechos do que viriam a ser as músicas deste novo disco. Por exemplo, no meio de ‘Menino e menina’, a gente enxertava um pedaço de ‘Alagados’. Neste tempo, ‘Óculos’ não durava menos de dezessete minutos ao vivo”.

Na mesma matéria, intitulada “Paralamas: em busca do batuque esquecido”, a outra ponta da mudança musical era descrita: “Sozinhos, Bi e Herbert se trancafiaram na casa da Vovó Ondina. Aos poucos, nestes ensaios em dupla, começou a se delinear uma alternativa: em vez de tentarem construir canções a partir de ideias e/ou melodias, Bi e Herbert passaram a sedimentar determinados grooves, determinadas bases rítmicas, de forma que surgiam músicas enormes e mântricas, hipnóticas pela repetição continuada dos temas. ‘Ficava tão bom’, lembra Herbert, ‘que houve uma hora em que a gente pensou em fazer um disco totalmente instrumental’”.

E qual era o som que inspirava esses ensaios na casa da Vovó Ondina? Reggae, muito reggae. Tanto pelo que se vivera na turnê de O Passo do Lui quanto pelo que os Paralamas ouviam naquele começo de ano (já um admirador de reggae, Bi ainda recebia LPs e mais LPs do ritmo). Inclusive, um desses LPs ajudou na composição do principal sucesso do disco, fadado a ser o que hoje é: um clássico dos Paralamas. Rondeau noticiou na Bizz: “Os ensaios continuaram até que um disco de reggae que o pai do Bi mandou do Chile (por alguma razão o mercado chileno é periodicamente invadido por discos de reggae) acionou algum fiozinho na cabeça de Herbert, que o fez recordar um riff de baixo e elaborar um fraseado de guitarra no estilo da música high life africana, que acabou se transformando no embrião de ‘Alagados’”.

Resultado: no dia 10/01/1986, em sua coluna de notas Rock Clips, no Jornal do Brasil carioca, o jornalista Jamari França (que viria a escrever a biografia oficial da banda) já indicava que os Paralamas se mirariam menos no pop-rock e mais nos ritmos africanos: “Paralamas já estão com uma demo pronta do LP que começam a gravar em fevereiro, depois do Carnaval: prometem um reggae radical, nada parecido com qualquer som vigente, com letras abrindo para diferenças sociais, e terá uma música do Barone e do Bi, recitada, falando de um cara que entrou para a Marinha porque ‘tava a fim de viajar e ficou frustrado por passar o tempo inteiro enfiado no navio descascando batata. João Barone em fevereiro estará totalmente liberado para shows”.

Aquele fascínio pelo reggae e suas vertentes só se aprofundou durante as gravações do disco no Rio de Janeiro. Tanto pelo que Herbert, Bi e Barone registravam no estúdio Nas Nuvens, sob a produção de Liminha, quanto pelo que faziam ou apoiavam. Novamente, aparece aqui Jamari França. Em outra edição da Rock Clips de 14/02/1986, o jornalista colocava: “Os Paralamas do Sucesso começam a gravar segunda-feira no estúdio Nas Nuvens seu terceiro LP, Selvagem?, com Liminha na produção. Na quinta que vem, Herbert, Bi, Barone, Zé Fortes e Mauricio Valladares promovem uma festa de reggae no [bar] Mistura Fina Barra com material novo que o Bi acaba de trazer dos Estados Unidos. Mauricio, ex-Rádio Fluminense, é especialista em ritmos negros, e já promoveu duas festas no Crepúsculo de Cubatão [antiga boate em Copacabana]. Ressalve-se que os Paralamas participam como pessoas físicas, não haverá show deles”.

Essas festas promovidas pelo DJ e fotógrafo Mauricio, parceiro de primeira hora dos Paralamas – que auxiliavam na discotecagem -, entraram para a história como as “Festas Funk’n’Reggae”. E eram uma mostra do que os nossos três conhecidos pensavam/ouviam naquele momento, como Herbert comentou ao JB: “São as músicas que a gente tem ouvido e propostas estéticas novas que gostamos muito”. Outra mostra foi o artigo “O papo furado dos ingleses”, escrito pelo antropólogo Hermano Vianna (então mestrando no Museu Nacional), irmão de Herbert, e publicado no Jornal do Brasil em 28/02/1986. Tratava-se de um libelo contra o excessivo apego ao rock inglês, em detrimento das novidades que surgiam na farta variedade dos ritmos africanos, que dizia: “Quem acompanha, com o mínimo de seriedade, a trajetória do pop nos anos 80 sabe que os músicos britânicos vivem atualmente uma descarada falta de criatividade. Não bastam as poses entediadas, as roupas elegantes, os esquisitos cortes de cabelo ou o desesperado esforço de jornais ingleses (e brasileiros) para nos empurrar grupinhos como Jesus and Mary Chain, Cult e comparsas. O rock britânico se contenta com repetições inaturáveis de clichês pós-punks que nos são vendidos como se fossem o máximo da novidade. E muita gente boa cai nesse papo furado. É certo: há anos a vitalidade frequenta outras praias. A música negra internacional vive um de seus períodos mais efervescentes. Do comercial (Aretha Franklin, Tim Maia) ao exotérico (Kassav’, Trouble Funk): esta é a trilha sonora deste fim de século”.

 

 

Embora nenhum dos Paralamas tenha colaborado com o texto de Hermano, as ideias coincidiam perfeitamente. Em outra coluna Rock Clips de 21/03/1986, Jamari França citava: “Perguntei para o Herbert Vianna se essa investida com duas festas funk’n’reggae mais a incursão do irmão dele, Hermano Vianna, como ideólogo da corrente black do Rock Brasil, não era tudo orquestrado para marcar posição como uma corrente de blacktude no rock brasileiro. Ele negou, disse que o Hermano tem um trabalho independente, mas fecham com a mesma posição dele. E ainda afirma que a capacidade brasileira de fazer rock já ficou provada, agora é hora de fazer rock com a linguagem musical daqui, e aí vem o disco dos Paralamas com influências principais de Paulinho da Viola e Gilberto Gil”.

Na reportagem “Os Paralamas trocam rock por reggae e samba”, escrita por Márcia Cezimbra e publicada na Folha de S. Paulo de 11/04/1986, Herbert voltou ao texto do irmão: “Ele [Hermano] é uma pessoa independente, mas todo mundo pensou que tudo aquilo era a nossa opinião. Não somos contra o ‘dark’. Somos contra o culto a tudo que é bom só porque é inglês”. Em meio aos trabalhos no Nas Nuvens, Herbert ia além: “O rock virou pastiche do rock. Nossa inquietação artística nos levou aos ‘raps’ raciais da Jamaica e ao funk dos subúrbios do Rio. Dizem que estamos promovendo festas de protesto contra o ‘dark’. Que tudo isso é uma jogada comercial. Nadamos numa experiência nova”.

Ainda para a Folha, Herbert até reclamava do excessivo mistério que a EMI-Odeon colocava sobre o lançamento do terceiro disco. A reportagem informava: “Ninguém até agora ouviu a fita de Selvagem?, mantida em segredo pela gravadora Odeon, que a partir de hoje começa a distribuí-la para a crítica. É apenas um dos mistérios criados pela estratégia mercadológica, ao que parece, do maior investimento da Odeon neste ano. (…) Herbert Vianna, se disse ‘chateado’ com as tentativas de atrasar o lançamento do disco: ‘Quero o disco logo no fim do mês, eles querem atrasar, está todo mundo falando no disco, mas ninguém ouviu nada”.

A espera só acabou em meados de abril quando as rádios começaram a receber a versão de “Alagados”. Em 12 de abril, inclusive, o Clip Clip, programa de clipes da TV Globo, fez um especial com os Paralamas, mostrando imagens da gravação do disco, incluindo momentos hoje históricos – por exemplo, Herbert colocando a voz em “Alagados”.

Dias depois, o jornalista Jamari França foi o primeiro jornalista de vulto a fazer uma resenha do álbum: no Jornal do Brasil de 15/04/1986, estava seu texto “Curto-circuito no rock Brasil”: “Acaba de aparecer uma mistura de samba de roda, reggae, fricote e samba rasgado, mas não se trata do lançamento de nenhum desses cantores baianos chegados a um folclore: o único elemento familiar é a voz de Herbert Vianna e trata-se de ‘Alagados’, a primeira música de trabalho de Selvagem?, o terceiro LP do trio Paralamas do Sucesso. (…) Os Paralamas pegaram uma das vertentes de seu trabalho, o reggae, e o espalharam ao longo das 10 faixas do disco, onde se ouve apenas uma vez o ska, popularizado por eles no ano passado. Se vai colar é outra história. A bola está com o ouvido imponderável do ouvinte. Sem sombra de dúvida, os Paralamas entregam um disco como deviam ser todos eles, com surpresas e saudáveis choques, numa prova de amadurecimento real e de consistência, uma boa resposta aos eternos e surdos críticos que só vivem falando do ‘rock pasteurizado das FMs sem atentar para o que já saiu e continua saindo”.

 

 

A repercussão era tamanha que uma rádio decidiu até veicular Selvagem? na íntegra: foi a Rádio Cidade carioca, no programa “102 decibéis”, em 26/04/1986, por obra e graça do coordenador de programação, Luiz Antônio Mello, e do supracitado Jamari. Durante a veiculação, vários ouvintes ligaram para a redação da Cidade: uns elogiando o disco, outros criticando a falta de “rock”. A discussão foi tão profunda que o próprio Herbert Vianna sentiu-se impelido a telefonar, e lá deu sua explicação sobre o trabalho.

Finalmente, em 12 de maio, o LP e a fita cassete foram postos à venda. Em meio à controvérsia, “Alagados” já era sucesso nas rádios. E as resenhas iam saindo, comentando o passo ousado. Na Folha de S. Paulo de 11/05/1986, estava “Paralamas, pela trilha selvagem”, texto de Marcos Augusto Gonçalves: “Embora tenha estado desde a estreia, com Cinema Mudo, ligado ao rock, o trio formado por Herbert, Bi e Barone sempre teve uma marca latina, caribenha, nitidamente visível na exploração do ska – um ritmo jamaicano. Agora a distância do rock ficou maior: Selvagem? é um disco de reggae e batidas afro-latinas, com um estofo de alta tecnologia de estúdio, a cargo do produtor Liminha”.

 

 

Quem também lembrava o distanciamento do rock era Antonio Mafra, jornalista que escreveu “Paralamas do batuque e do reggae”, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 24/04/1986: “Para quem está esperando mais um disco de rock puro e simples haverá decepções. O novo trabalho é estranho demais para esses padrões. Possui traços africanos reinventados pela linguagem jamaicana e do Caribe”.

As revistas também comentavam aquela mudança. Na Bizz, Alex Antunes resenhava: “Quem ouviu ‘Alagados’, a moda-de-guitarra que os Paralamas escolheram para anteceder o novo LP, já desconfiou que algo de diferente estava sendo armado pelos caras. Dito e feito. Selvagem?, o álbum, chuta a uns bons quilômetros de distância a história de que o trio não passaria de um sub-Police da província. Passou. Lógico, a chave ainda é a conexão jamaicana. Mas as articulações (bem lubrificadas) ska-reggeanas deste terceiro disco da banda ultrapassam os modismos. Baixou o santo (Jah, aliás)”. Na revista Roll, em maio, Luiz Carlos Mansur ponderava: “A impressão que fica é que o disco causará no mínimo estranheza. Vejamos se o mercado nacional já está amadurecido o suficiente para encarar mudanças bruscas de orientação musical. Afinal, o talento ainda é o melhor avalista para uma empreitada como esta”.

Claro, havia críticas dos jornalistas. Eram até coincidentes no ponto negativo: o excesso de interferências da produção. Na Folha, Marcos Augusto Gonçalves opinava: “É possível fazer algumas restrições ao padrão Liminha de qualidade (…) Há momentos em que simplesmente não há Paralamas tocando (poderia ser qualquer um). É o caso, por exemplo, do arranjo de reggae feito para ‘Você’, de Tim Maia. O grande achado que foi regravar a música acabou, dentro de certas medidas, prejudicado por um som que, se é competente, não tem diferença nenhuma de outros sons feitos por Liminha para reggae (…). É tudo muito amestrado. O que é mau quando se sabe que um dos grandes sucessos dos Paralamas é ser um trio com uma capacidade de produzir som – em volume e qualidade – para encher os ouvidos de um Maracanã”. Na Bizz, Alex Antunes apontava erro parecido: “O único problema da boa produção é o mau gosto desses recursos e o timbre besta dos tambores eletrônicos (de vez em quando um póin-póin corta o barato)”.

Seja como for, a boa vontade da recepção e o apoio do público (que fez Selvagem? vender 100 mil cópias já na primeira semana de lançamento) ajudaram o terceiro álbum dos Paralamas a se tornar, pouco a pouco, um clássico. Basta ler o fim da resenha de Marcos Augusto Gonçalves: “Com problemas ou não, o disco tem o mérito de ser um passo, um lance, uma jogada contra a repetição do mesmo. E é ótimo de se ouvir”. Na Bizz, Alex Antunes concluiu: “Os Paralamas são barra-limpa”.

E finalmente, cabe citar dois trechos daquela matéria de José Emílio Rondeau para a Bizz de junho de 1986. Explicando a foto da capa (lembremos: o selvagem duvidoso da foto – daí o ponto de interrogação no título – é Pedro Ribeiro, irmão de Bi, num acampamento com amigos, em Brasília), Herbert justificou a escolha: “Foi uma brincadeira com um certo fundo contestatório. Não só em relação às capas de disco, mas também em relação a toda a estética, todo o tratamento visual do rock brasileiro, uma sacanagem que contrastaria com esta coisa de sério, compenetrado, de gola levantada, aquele olhar. Daí começou a pintar a ideia de um disco que chocasse. A nossa intenção era chamar a atenção para outras coisas que a gente estava ouvindo, de uns dois anos para cá, e sobre as quais ninguém falava, como Yellowman, Dr. Alimantado, todo um outro mundo musical que corre paralelo a toda esta coisa de rock e pop”. Bi completou: “E no Brasil ninguém vê isso. Só veem a parte do rock branco”.

Herbert concluía, na reportagem publicada em junho de 1986: “A gente está neste disco como quem acabou de sair de uma sala apertada, lotada de gente, descobre uma porta e depois vê que existe uma sala enorme e vazia, para nós explorarmos. E nós só demos o primeiro passo”.

Quantos passos foram dados depois …

Veja a galeria completa de fotos com todas as reportagens de imprensa citadas aqui!